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Sopa De letras

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

A CAIXA DAS MEMÓRIAS

Olhei para ele, ao longe. Fiquei na dúvida se era alguém com quem há muitos anos atrás, partilhara sonhos, projetos, alegrias e tristezas.   Aproximei-me um pouco, discretamente, não queria que me visse, sem eu ter a certeza.

   Muitos anos se tinham passado, mas aquelas mãos, aquele olhar, tinham ficado gravados para sempre algures num, recanto escondido da minha memória. 

 

 Não me quis aproximar mais. Agora, a incerteza era se eu queria ou não reabrir a caixa, onde guardava todas as memórias que me faziam sofrer. Afinal eu fechava-as a cadeado naquela caixa secreta da minha memória, para enganar o sofrimento.

 

O Tempo não tinha sido bondoso para ele, as rugas sulcavam-lhe o rosto, o cabelo estava quase completamente branco e apesar de se terem passado muitos anos, ao olhar para aquele rosto impiedosamente envelhecido pelo tempo, o cadeado começava a enfraquecer e a quebrar-se. Enferrujado pelas lágrimas das memórias fechadas, o cadeado abriu-se e as memórias soltaram-se da caixa como se fossem todos os males contidos na caixa de Pandora.

 

O sofrimento e a raiva da traição percorreram-me a mente e o corpo em segundos, num frenesim elétrico agitado, como se tivesse apanhado um choque elétrico.

 

As melodias dos noturnos de Chopin invadiam-me a memória, ao mesmo tempo que as imagens de umas mãos dedicadas e uns dedos esguios, deslizavam pelas teclas do piano, com uma agilidade quase felina e uma melodia harmoniosamente mágica se espalhava pela casa.

 

Despois, inebriados pela magia do som, as mesmas mãos delicadas, os mesmos dedos esguios, trocavam as teclas do piano, pelas curvas do meu corpo, as minhas tentavam desajeitadamente acompanhar-lhe o ritmo e o compasso e ambos inebriados de música, de magia e de paixão atingíamos o êxtase dos sentidos.

 

Um dia partiu numa digressão e eu não pude acompanhar. Regressou apenas para levar as suas roupas e o piano. Tinha-se apaixonado pelas mãos da colega com quem tocava duetos, da mesma forma que eu me apaixonara pelas suas.

Inebriada pela dor das memórias a cobardia assolou-me e não fui capaz de me aproximar.

Fingi ajeitar os quadros da galeria. Sózinha, abandonada, ferida, afogara as mágoas nas telas e no pincel. A dor e o sofrimento transbordavam de tal forma nos meus quadros que o sucesso fora inesperado.

A Galeria tinha esvaziado. Estávamos somente os dois.

“Sabes, nunca te consegui esquecer.” – Soou ao meu ouvido a voz sonante e profunda tal e qual como eu a recordava destoando do Homem acabado que estava à minha frente.

Segurava uma brochura da exposição nas mãos. E agora que se encontrava na frente dos meus olhos, percebi que tremiam desmesuradamente.

 

A voz embargava-se-me na garganta, mas consegui articular apenas:

“Não” - E ele percebeu que o reconhecera e que nunca o perdoara.

“Desculpa, eu fui um idiota. Só quando passei pelo mesmo é que percebi o sofrimento que te infligi”.

“Andei para a frente e hoje sou outra pessoa. Já foi há tanto tempo que esqueci há muito.” – Menti.

 Era verdade que andara para a frente e que era outra, mas o sofrimento, liberto da caixa das memórias ainda me sufocava, como no dia em que ele regressara apenas para partir.

Convidei-o para um café. Falámos como dois velhos amigos que se reencontraram. Contou-me a vida que tivera. Uns anos de sucesso pelo estrangeiro a par e a solo. O auge da Carreira. Depois a doença Parkinson. O abandono da companheira. E o fim precoce da carreira.

“Foste a melhor coisa que me aconteceu na vida.”

“Infelizmente não posso dizer o mesmo.”- Respondi não me importando com os sentimentos dele.

  Senti-me mal com os meus próprios sentimentos. Senti-me vingada. Ao contrário da caixa de pandora que no fundo tinha a esperança, no fundo da minha caixa ficara apenas um imenso vazio onde o perdão não conseguia entrar.

 Mesmo assim, um triste sentimento de pena invadiu-me e ofereci-lhe o quadro das mãos dele nas teclas do piano.

 

   Disse adeus para sempre e parti com aquele que era realmente a minha alma gémea.

 

 

(Conto de ficção   de minha autoria)

 

 

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