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Sopa De letras

Vinha á procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Vinha á procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Romance triste de um lápis.

 

Ele era um lápis especial, feito da melhor madeira, o seu interior era feito da grafite mais pura, aprimorada pelas gomas e resinas de maior qualidade. Quase todas as Lapiseiras o adoravam, mas ele achava que estas tinham uma personalidade muito artificial. Afinal ele era um lápis genuíno de esmerado fabrico. Era uma verdadeira criação da Natureza. Um dia, ela chegou. Foi como que uma lufada de ar fresco entre folhas de papel amachucadas, lapiseiras artificiais e borrachas gastas pelo tempo. Aquela borracha parecia diferente. Juntos poderiam formar uma equipa imbatível, pois certamente com um aspecto daqueles, ela só traria perfeição ao seu trabalho. Via-se que era uma borracha exigente com o seu trabalho. Assim que chegara apagara logo alguns rabiscos mal desenhados pelos seus companheiros já gastos e destreinados,cuja grafite nunca fora de tão boa qualidade como a sua tornando-lhes a escrita deselegante e áspera.

 

Estava certo de ter encontrado a sua alma gémea. Decidiu declarar-se-lhe. Assim que vislumbrou uma folha de papel imaculadamente branca e pediu-lhe ajuda para o efeito. A folha de papel não resistiu aos encantos do lápis e deixou que este a preenchesse com as suas palavras de amor para a borracha.

-És linda. - Escreveu ele.

A borracha limitou-se apagar o que ele escreveu.

Claro – pensou ele. - Uma borracha exigente quer algo mais.

-Tens umas formas perfeitas.

A borracha tornou a apagar o que o lápis escrevera. Cego pela paixão, achou que ela queria que ele lhe escrevesse mais palavras belas.

-A tua pele rosa é tão macia, tão bela e tem um toque de veludo.

 A borracha tornou apagar o que ele escrevera. Porém cego e convencido de que a borracha estava conquistada por si e quisera apenas dar-lhe de novo a sentir o toque da sua pele, voltou a escrever palavras de elogio à perfeição da borracha, palavras de admiração e juras de amor eterno. Todas as frases escritas pelo lápis, a borracha apagou friamente, palavra, por palavra, letra por letra, se tornar numa borracha vulgar e demasiada gasta.

 

 O lápis triste e desiludido com borracha, desabafou com a folha que se tornara a sua melhor amiga. Contou-lhe das suas ilusões, como pensara que esta borracha pudesse aperfeiçoar o seu trabalho, mas como se desiludira ao ver que ela apenas sabia destruir o que os outros criavam e a si própria. Desabafou o seu desejo de encontrar uma alma gémea que absorvesse os seus pensamentos e soubesse trabalhar em equipa com ele. Foi então que reparou que a folha estivera sempre do seu lado, apoiando-o, absorvendo as suas ideias, tornando-as reais. Percebeu que a sua alma gémea estivera sempre ali e ele nunca vira. Não a ia perder. Declarou-se. A folha ficou feliz por finalmente ter percebido que ela estava ali. Mas era tarde demais, a sua vida estava a terminar. Tinha ficado gasta, amachucada e ferida demais pelo escrever e o apagar das declarações de amor à borracha. O lápis amargurado por ter perdido o seu verdadeiro amor, por sua culpa deixou-se afiar até ao fim e nunca mais quis escrever uma letra que fosse.

 

 

 

conto de ficção escrito por mim

ilustração da internet.

Amor Violento




 

  No início era o sonho a ilusão de uma vida a dois. Planos e projectos partilhados e levados em frente por duas mentes e quatro braços. No início eram os abraços, os beijos e a paixão. Eram as promessas vãs de uma cumplicidade inexistente que apenas existia na sua mente.

 

    Aos poucos ela vislumbrou a verdade dolorosa e violenta que foi emergindo, mas não queria aceitar, o que sempre soube, o que sempre esteve dentro da sua mente, é que o seu casamento poderia transformar-se a qualquer momento numa faca de dois gumes, fabricada na forja dos ciúmes.

 

    Lentamente o sonho deu lugar à desconfiança, a desconfiança à destemperança, a destemperança à violência; a violência à dor, e por incrível que pareça, a dor ao amor. Um amor fracassado que não sabe ser feliz, que só sabe marcar a punho, a murros, a insultos a sua presença. Um amor com sabor a  traição, com odor a álcool, que exalava do hálito do seu companheiro , quando irrompia pela casa embrutecido e selvagem e a obrigava abrir as pernas e se servia dela, como objecto de prazer, como se uma qualquer se tratasse, sem qualquer significado para ele, e lhe violava mais do que o corpo a sua alma revoltada. Um não amor manchado pelo sangue da violência, da prepotência!

 

Sim, ela por fim percebeu que a sua vida não era senão uma faca de dois gumes que aos poucos a cortava e despedaçava. Percebeu que não há caminho que tome que a possa libertar. Se ficar do seu lado, será aos poucos mutilada, mesmo que o não seja fisicamente.

 

    As humilhações e os insultos mutilam a sua auto – estima. Enquanto os seus punhos cerrados, lhe deixam nódoas negras no seu corpo e no seu coração pisado de sangue e maus-tratos. Se o deixa e foge, ele persegue – a e não a deixa viver. Ela sabe que vive num beco sem saída. E como não tem saída possível, volta para trás, sabendo que só sairá ferida, pela faca de dois gumes em que se transformou a sua vida. Talvez seja essa a saída, uma faca de dois gumes que possa cravar no coração, ou quem sabe se a loucura e a coragem o permitirem possa ela também cravá-lo no dele, num último abraço fatal.


 

Em homenagem às vítimas de violência doméstica



texto de ficção de minha autoria
Imagem retirada da internet

ROCHA SEDIMENTAR



Disseste-me que eu conseguiria chegar ao fim da caminhada. Disseste-me que estarias sempre do meu lado para me amparar, quando tropeçasse nas pedras da calçada. Prometeste que o céu um dia seria meu. Garantiste que eu seria capaz. Ensinaste-me todos os truques para evitar inimigos, e todos os golpes para os confrontar com sucesso os adversários mais ardilosos. Fizeste a jura eterna de que jamais me abandonarias, durante toda a jornada. Mesmo que falhasse, mesmo que eu dissesse que não era capaz. Tu estavas ali. Estavas ao meu lado. A tua voz ecoava no meu íntimo e dizia-me baixinho: - Força! Eu sei que tu és capaz! E enquanto permaneceste do meu lado, eu fui capaz! Ultrapassei todas as barreiras com que deparei. Utilizei todos os teus ensinamentos. Cumpri as regras do jogo. Mas estava dependente de ti, como as lapas do mar dependem das rochas a que se agarram. Porque eu sabia que podia falhar, que tu estarias ali para me amparar.

Eu estava confiante que escalaríamos a montanha da vida juntos. Eu estava confiante. Segura que tinha onde me agarrar. Tu eras a minha rocha, a minha pedra angular. Mas desvaneceste-te. Desapareceste do meu caminho. Desfizeste-te como uma rocha sedimentar. E eu já não sou capaz de continuar, porque caí. Porque acreditei em ti. Mas tu eras uma pedra falsa na qual me apoiei imprevidente. Confiante demais para evitar a derrocada. Estou ferida, humilhada da queda. Caminho cambaleando, em busca do equilíbrio perdido. Sofro. Grito que não sou capaz! Sinto a vida a fugir-me como areia a escorrer por entre os dedos de quem brinca com ela. Descubro que erigi a minha vida como um castelo à beira do mar. Agora sei que era tudo mentira. Tudo aquilo em que me fizeste acreditar não passava de uma grande ilusão. Fizeste-me viver agarrada a ideais, que não existem. Rochas que se transformaram em areia.

Resta apenas o vazio. O sofrimento. A sensação de abandono, de traição. Um porquê desesperado em busca da razão. Mas eu vou sobreviver. Vou sobreviver porque já não me agarro à segurança do teu amor, da tua protecção. Eu vou sobreviver porque agora é o ódio sequioso de vingança que me guia.

Perseguir-te-ei sombria e sorrateiramente até ao fim dos meus dias. Derrotar-te-ei lenta e incessantemente, da mesma forma que o mar derrota as rochas, transformando-as em areia. E afinal o que és tu? Senão uma ilusão! Uma pedra falsa, areia: uma rocha sedimentar vencida pelo mar!


 


 

Texto de Ficção de minha autoria

Fotografia de João Palmela

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