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Sopa De letras

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Sabor a azul do Céu...

 

 -Beija-me…- Disse ela de pé, para ele sentado a seu lado em cima do muro. Ele espantado, concentrou-se no silêncio que antecedera estas palavras. Devia ter imaginado algo. Desejava-o com tanta força que imaginava ouvir a voz ligeiramente rouca e doce dela pedir-lhe: beija-me.

-Ouviste o que te pedi?

-Desculpa, pensei que estivesse a imaginar.

-Porquê não me queres beijar? Perguntou ela num misto de tristeza e divertimento, mas honestamente intrigada..

-Sim. Quero. É o que mais quero. Não me estás a gozar?

-Porque haveria de o fazer?

-Não sei...

-Pára com isso e beija-me!

-Mas..

-Mas o quê?

-Mas eu só tenho doze anos e tu já tens catorze .

Ela riu-se.

-Tens com cada uma. Quero lá saber disso. Conheço-te desde que nasci. Hoje é o dia perfeito para me beijares.

Foi assim que sentado num muro por ser mais baixo do que, ela à luz da estrelas e do luar que ele deu o seu primeiro beijo.

-Gostaste?- Perguntou-lhe ela.

Ele ainda estava a viajar por entre a lua e as estrelas sem acreditar.

-Devo estar a sonhar.

-Não, não estás.-  E voltou a beijá-lo.

-A que te soube?

- A azul do céu, se as cores tiverem sabores este é o teu, sabes a azul do céu! E eu?

-A amoras frescas acabadas de colher.

 -Agora vamos para a nossas casas que já é tarde.

 -Amanhã, encontramo-nos?

-Sim- Disse ela com um brilho igual aos das estrelas nos olhos.

 

Mas não voltaram a encontrar-se senão passados dez anos. O tempo não passara por ela e a sua voz era inesquecível.

 

-Dá-me licença?

Ele virou-se.

-És tu? És mesmo tu?

-Eu quem? Respondeu ela divertida sem o reconhecer.

 - Não te lembras de mim? Crescemos juntos, brincávamos no muro junto ao telheiro de noite, fingíamos que éramos gatos e tudo o que se possa imaginar, um dia desapareceste e nunca mais soube ti. Tinham mudado de casa.

 

-Sebastião? Não acredito! -Lançou-se-lhe nos braços como se fossem crianças de novo. -Desculpa esta é tua namorada? – Perguntou um pouco atrapalhada notando uma presença feminina ao lado.- Ele riu.

-Não, não tenho ninguém É apenas a menina da loja.

-E tu?

-Nem namorado, nem marido. Mas chega aqui. Há uma pessoa que te quero apresentar.

 

Junto das prateleiras de livros infantis estava um menino cujo perfil era indubitavelmente o dela.

-Este é Sebastião. O meu filho. Foi por isso que parti sem nada dizer.

-O teu filho?

-Vamos tomar um café?

Dirigiram-se para a cafetaria da livraria .

-Sim. Foi por isso que te pedi um beijo naquela noite. Queria imaginar que ele era um pouqinho teu.

-E o pai?

- Nunca mais soube dele. Depois dele fazer o reconhecimento da criança nunca mais o vi. É o Mateus que era da minha turma. Os pais mandaram-no para Londres para casa de uma tia-avó. No entanto os pais dele mandam dinheiro todos os meses para o neto. Mas não o querem ver. Também sofri tanto que não preciso de mais nada e nem quero ver a cara de ninguém daquela família.

 

-Porque não me disseste nada.Eu tinha-te ajudado.

 

-Porque não queria destruir a imagem romântica que eu sabia que tinhas de mim. Além disso eras uma criança inocente. Dois apenas de diferença, eu sei, mas naquela altura era uma diferença enorme. Mas queria que tivesse sido teu, por isso quis sentir o teu sabor.

-Olá Sebastião...

-Olá, és o amigo da minha mãe que diz que as cores têm sabor?

Sebastião sorriu.

-Ela contou-te isso?

-Sim, perguntei à minha mãe a que sabiam os beijos. Ela respondeu que um dia um amigo lhe disse que sabiam a azul do céu…

.-Sim fui eu. Porque quiseste saber?

-Queria saber porque me chamava Sebastião e ela disse que foi por ser o nome da única pessoa que gostou dela de verdade e lhe deu o beijo mais saboroso do mundo.

Ele olhou para ela e ela enrubesceu como se tivesse catorze anos de novo. Ele nunca a esquecera, mas o amor magoara-o demais. Fora o seu primeiro beijo e a sua primeira desilusão.

-Sempre pensei que fugiras de mim por causa daquele beijo.

-Oh não, nunca..os meus pais não me deixaram falar com mais ninguém, desculpa eu não te quis magoar...

 

-Agora percebi.Foi bom ver-te. Tenho de ir para a missa.

-Vais à missa?

-Não. Vou celebrá-la. Sou o novo pároco desta paróquia.

Ele vislumbrou uma nuvem de decepção nos olhos dela e como que em jeito de se desculpar disse-lhe:

-Eu nunca te esqueci, pensei que te perdera para sempre. Querem vir assistir?

-Com certeza.- Disse ela.

-Não te volto a perder. Posso ter-te perdido como homem, mas hoje vejo que nunca te perdi como irmão de amizade e isso vale mais que mil paixões.- E seguiram de mão dada até à igreja.

 

A multidão cochichou entre si. E muitos rumores soaram nos anos que se seguiram. Mas nunca as vozes do povo tiveram razão em falar.

 

 Passados 30 anos. Encontravam-se ambos debaixo do telheiro. Ela de pé. Ele sentado no muro.

 

-Beijas-me? – Disse ela.

Ele não respondeu, deu-lhe ao de leve um beijo na testa.

-Não, beija-me mesmo, só por esta vez.

-Sou um padre. Sabes que não posso.

-Só por esta vez.

Ele não resistiu e beijou-a. Ela nunca perdera o sabor a azul do céu.

-Porque me pediste para te beijar?

-Porque queria levar o teu sabor a amoras frescas acabadas de colher comigo. Prometes-me tomar conta do Sebastião?

-Sim, embora ele já seja um homem feito, mas porque me pedes isso?

-Porque tenho de partir. - E dizendo isto desfaleceu nos seus braços adormecendo para sempre.

 

 

 Nunca um serviço fúnebre lhe fora tão doloroso, mais a mais, por sentir que aquelas almas presentes o condenavam.

Como se pode condenar um amor tão puro? Nunca ninguém acreditaria que em 52 anos de existência a amara sempre e só tinham trocado dois beijos, mas a coincidência do filho ter o seu nome também não ajudava.

 Só quem amou verdadeiramente acreditaria num amor tão puro. Não se importava com o mundo.

Olhava o céu, queria encontrá-la. Ainda tinha o seu sabor a azul do ceú, na boca.

 

O céu ganhara um novo significado na sua vida.

 

conto de ficção escrito por mim

ilustração retirada da internet.

 

 

ROCHA SEDIMENTAR



Disseste-me que eu conseguiria chegar ao fim da caminhada. Disseste-me que estarias sempre do meu lado para me amparar, quando tropeçasse nas pedras da calçada. Prometeste que o céu um dia seria meu. Garantiste que eu seria capaz. Ensinaste-me todos os truques para evitar inimigos, e todos os golpes para os confrontar com sucesso os adversários mais ardilosos. Fizeste a jura eterna de que jamais me abandonarias, durante toda a jornada. Mesmo que falhasse, mesmo que eu dissesse que não era capaz. Tu estavas ali. Estavas ao meu lado. A tua voz ecoava no meu íntimo e dizia-me baixinho: - Força! Eu sei que tu és capaz! E enquanto permaneceste do meu lado, eu fui capaz! Ultrapassei todas as barreiras com que deparei. Utilizei todos os teus ensinamentos. Cumpri as regras do jogo. Mas estava dependente de ti, como as lapas do mar dependem das rochas a que se agarram. Porque eu sabia que podia falhar, que tu estarias ali para me amparar.

Eu estava confiante que escalaríamos a montanha da vida juntos. Eu estava confiante. Segura que tinha onde me agarrar. Tu eras a minha rocha, a minha pedra angular. Mas desvaneceste-te. Desapareceste do meu caminho. Desfizeste-te como uma rocha sedimentar. E eu já não sou capaz de continuar, porque caí. Porque acreditei em ti. Mas tu eras uma pedra falsa na qual me apoiei imprevidente. Confiante demais para evitar a derrocada. Estou ferida, humilhada da queda. Caminho cambaleando, em busca do equilíbrio perdido. Sofro. Grito que não sou capaz! Sinto a vida a fugir-me como areia a escorrer por entre os dedos de quem brinca com ela. Descubro que erigi a minha vida como um castelo à beira do mar. Agora sei que era tudo mentira. Tudo aquilo em que me fizeste acreditar não passava de uma grande ilusão. Fizeste-me viver agarrada a ideais, que não existem. Rochas que se transformaram em areia.

Resta apenas o vazio. O sofrimento. A sensação de abandono, de traição. Um porquê desesperado em busca da razão. Mas eu vou sobreviver. Vou sobreviver porque já não me agarro à segurança do teu amor, da tua protecção. Eu vou sobreviver porque agora é o ódio sequioso de vingança que me guia.

Perseguir-te-ei sombria e sorrateiramente até ao fim dos meus dias. Derrotar-te-ei lenta e incessantemente, da mesma forma que o mar derrota as rochas, transformando-as em areia. E afinal o que és tu? Senão uma ilusão! Uma pedra falsa, areia: uma rocha sedimentar vencida pelo mar!


 


 

Texto de Ficção de minha autoria

Fotografia de João Palmela

Uma noite de chuva...



A chuva caía impiedosa sobre as ruas sombrias da cidade fria. A noite chegara escura e tempestuosa à cidade, indiferente à azáfama, daqueles que regressando do trabalho, corriam apressadamente para o reconfortante abrigo que eram os seus lares. Nas ruas, apenas se ouvia o som ritmado da chuva e o ulular do vento, formando uma estranha melodia, de certo modo reconfortante para aqueles, que se encontravam abrigados no seu lar., sentados à mesa com o jantar a fumegar.
     Pouco a pouco, foram-se acendendo as luzes na cidade, luzindo ao longe como estrelas caídas no chão!

 

     Marianita, junto da lareira não conseguia esquecer o quadro triste que assistira ao regressar da escola. Ainda não tinha anoitecido, quando iniciara o seu regresso a casa. Mas a chuva parecera enegrecer o entardecer. Marianita seguia sozinha nas ruas semi- desertas, onde apenas circulavam alguns transeuntes mais incautos apanhados de surpresa, que procuravam abrigar-se . Marianita caminhava observando, como a cidade se tornara deserta e hostil naquelas horas. Gostava de apreciar tudo o que a rodeava enquanto seguia o seu caminho. Como a sua casa ainda era distante da escola, distraía-se apreciando tudo o que via no caminho. As “vendedeiras” de rua (como o povo lhes chamava) gritando:

 

- Oh, Menina! Compre que é a cem! Meias de senhora para fazer a perna bonita!

 

- Quentinhas e boas! Castanhas assadas...Olháá castanha assada! –

 

Por vezes não resistia ao fumegar das castanhas, que lhe assaltavam o nariz, despertando-lhe a gulodice, e acabava por comprar o tradicional cartuchinho de castanhas feito de jornal. Entretinha-se então a comer as castanhas pelo caminho e quando terminava, por brincadeira ia ver que notícias vinham de “brinde” no cartucho das castanhas. No outro lado da rua, via uma mãe passeando carinhosamente o seu bebé, que mostrava com orgulho às amigas que encontrara por acaso. Via os lojistas darem os últimos retoques para o fecho das suas lojas. Pelas ruas da cidade ouvia-se falar de tudo um pouco: da vida que estava cada vez mais cara, das guerras intermináveis que todos os dias apareciam nos noticiários da televisão e nas páginas dos jornais; dos políticos que nada faziam e tudo prometiam; da doença estranha da vizinha; e uma infinidade de coisas triviais, mas que pareciam dar uma vida própria à cidade, como se estas fosse um quadro vivo. Pelo caminho via ainda algumas pessoas que passeavam o seu cãozinho ou cães que passeavam os donos, como lhe dissera uma vez um amigo, após assistirem a um aparatoso trambolhão de um dono que não conseguira segurar o seu cão! E Marianita ia pensando naquelas pessoas como personagens de um romance, que ela achava real. Pois não eram os romances, retratos fantasiados da vida?

 

         Mas naquele dia, não era nenhuma dessas imagens que lhe permanecia na mente. Era uma imagem bem diferente e bem triste. A vida na cidade, não torna de pedra só as paredes das casas, mas também o coração daqueles que a habitam. Habituados a conviver com as misérias da vida, as pessoas acabam por se habituar a lhes passar ao lado. Mas quando a miséria bate à porta daqueles que de alguma forma nos tocam o coração, algo muda e faz-nos recordar que afinal, somos humanos e não animais em luta pela sobrevivência numa selva de pedra.

 

  Marianita reparara ao passar pelas escadas da Igreja, que a Ti ‘Joana ainda aí se encontrava. Abrigada no vão das escada, embrulhada em sacos plásticos de recolher o lixo. Todos conheciam aquela velhinha que vendia flores junto à igreja. Todos sabiam quem era a Ti ‘Joana, mas poucos sabiam da miséria em que vivia.
        Ela tinha grande simpatia pela Ti’ Joana como todos os que a conheciam. Por vezes observava-a e ficava a pensar que deveria ter sido muito bonita na sua juventude, aquela velhinha. Pequenina, já encurvada pelo peso dos anos, de cabelos alvos, tez tisnada pelo sol e olhos redondinhos, muito vivos, brilhantes como safiras. Mas o que ela achava ainda mais bonito na ti’ Joana, era o seu sorriso radioso, que parecia aquecer o coração daqueles que por ela passavam.

 

   Todas as tardes passava por ali, e dava dois dedos de conversa com a ti ’Joana:

 

- Então ti’ Joana como vai?

 

- Cá estou minha flor, cá estou! E a menina como vai a sua escola? - Marianita respondia

 

- Ora, vai indo! Às vezes é difícil mas tem de ser! E a ti’ Joana sempre dizia:

 

- Estude minha flor, estude para ser alguém. Olhe que eu não pude e acabei aqui, a vender flores à porta da igreja, na minha velhice – e nisto levantava-se  e oferecia-lhe uma flor que ela não queria aceitar,( por compaixão), mas ti’ Joana insistia :

 

- Se não aceitar, fico triste consigo. Mais a mais, a menina tem-me comprado tantas, que essa não me deixa pobre. E agora vou arrumando, que me vou recolher! - Marianita beijava a face da velhinha em jeito de agradecimento e despedia-se:

 

 -Até amanhã ti’ Joana.

 

- Até amanhã se deus quiser, minha flor – respondia-lhe a ti’ Joana e sumia-se vagarosamente pelas ruas estreitas na traseira da Igreja.

 

                  Todos sabiam quem era a ti’ Joana que vendia flores na porta da Igreja todos a conheciam, mas muito poucos ou nenhuns sabiam da miséria em que vivia. Só naquela tarde chuvosa de inverno Marianita se apercebeu dessa situação.

 

- Ti’ Joana não vai para casa? Olhe que com esta chuva e sem agasalho fica doente!

 

- Oh, minha flor! Estou à espera que me venham avisar se há vaga no Albergue. Com esta chuva costuma estar cheio. Mas eu não pude ir lá mais cedo! – Marianita ficou espantada.

 

 -Albergue?! Então a ti’ Joana não tem a sua casa? - Perguntou admirada.

 

-Oh, minha flor! A pensão não dá para pagar uma renda e o que ganho com as flores, dá-me para comer e já pouco me sobra para o resto! – Muda de comoção, a rapariga sentiu as lágrimas a rolarem-lhe pela face abaixo. Mas para que, ti’ Joana não se apercebesse, retirou o guarda – chuva rapidamente e afastou o rosto, que molhado pelas lágrimas de chuva, disfarçava as lágrimas de compaixão. De seguida, retirou o sobretudo e num gesto espontâneo saído do coração, agasalhou com ele a velhinha que reclamava com Marianita para não o fazer. Mas esta respondeu-lhe:

 

-Agora quem fica triste consigo, se não aceitar sou eu! Eu já estou perto de casa! - E nisto abriu o guarda – chuva e pousou-o na mão de ti’ Joana para esta se abrigar dizendo-lhe ainda:

 

-Espero que consiga lugar no albergue depressa e que pelo menos esteja mais aconchegada, enquanto espera.

 

-Eu bem digo que você é uma flor – e puxando-a junto a si, cobriu-lhe o rosto de beijos, enquanto lágrimas rolavam pelo seu mimoso rosto enrugado. A rapariga deu-lhe um beijo no rosto e desprendeu-se suavemente.

 

-Agora tenho que ir depressa, por causa da chuva! – Desculpou-se e desatou a correr sem parar, numa ânsia desenfreada de chegar a casa. As lágrimas corriam-lhe incontrolavelmente pelo rosto. Ia tão triste, tão chocada, que já nem sentia a chuva, nem distinguia as suas lágrimas das gotas da chuva. Sentia-se sem forças para lutar contra aquela miséria. Se a casa fosse dela, mais que não fosse aquela noite, a Ti’ Joana teria cama, comida e roupa lavada. Mas a casa não era sua, era de seus pais e estes austeros como o eram não o permitiriam. Quando chegasse a casa teria de dizer que se tinha esquecido do sobretudo em casa de uma amiga, onde fora lanchar que se esquecera dele na escola, alguma desculpa arranjaria. Mas não foi preciso. Ninguém a viu chegar, e quando a viram, junto à lareira, já tinha tomado banho e encontrava-se de roupão e chinelos. Mas naquele momento, não era o facto de ter dado o sobretudo que a preocupava. Não conseguia tirar da sua mente a imagem da ti’ Joana, tão velhinha, tiritando de frio, mal abrigada da chuva e do vento, na iminência de passar uma noite ao relento. Um rodopio de pensamentos assaltava-lhe a mente constantemente. Ti’ Joana não teria família? Filhos, sobrinhos? Alguém que a acarinhasse na sua velhice? E pensando nisto tudo, ficava cada vez mais triste. A ideia de tentar ajudar aquela velhinha não lhe saía da ideia da cabeça. Mas que poderia fazer ela com os seus dezoito anos e sem recursos próprios? De repente teve uma ideia! Iria falar com D. Irene, a sua vizinha. Sabia que ela era assistente social e tinha e especial simpatia por este tipo de situações. De certeza que iria fazer alguma coisa. Era isso! Amanhã, bem cedinho iria juntamente com D. Irene falar com a ti’ Joana e veriam como a poderiam ajudar. Mas a imagem de ti’ Joana dormindo ao relento naquela noite fria e chuvosa, não lhe saía da cabeça.

 

           Perto de sua casa, junto à igreja continuava Ti’ Joana, que rodeada das flores que sobravam e aconchegada pelo sobretudo de Marianita, se deixara dormir, vencida pelo cansaço dos anos. E sonhava. Tinha sonhos lindos. Sonhava com uma cama quentinha, com lençóis de linho. Sonhava que Marianita vivia com ela e a beijava antes de adormecer. Depois o sonho mudava. Sonhava com flores. Sonhava que estava num prado imenso rodeada de flores por todos os lados. Via pombas brancas a, esvoaçar sem parar como se estivessem a dançar. Entretanto, paravam de dançar e uma pomba vinha-lhe pousar no ombro. Qual não era o seu espanto ao perceber que a pomba lhe falava e ela a percebia! A pomba dizia-lhe:

 

- Vem connosco ti’ Joana! Agora podes voar. Neste prado, não há frio, não há fome, não há tristeza e tudo é possível! Voa connosco. Vem, que nós levamos – te ao encontro de tua mãe. E ela respondia.

 

- Mas minha mãe, já morreu há tantos anos! - Então as pombas diziam:

 
 

-Ninguém morre. Apenas viajamos. Vem connosco!
E ti’ Joana sorriu e voou com as aves.

 

       No dia seguinte, Marianita levantara-se bem cedo e como planeara fora falar com D. Irene. Esta acedeu de imediato ao seu pedido e juntas dirigiram-se à igreja. Aí, encontrava-se já um pequeno grupo de pessoas junto ao vão da escadas, deixando escapar alguns lamentos de compaixão. Alguns inquiriam se alguém sabia se ti’ Joana tinha família. Marianita, de coração apertado aproximou-se. Deitada numa cama de sacos de lixo, aconchegada no sobretudo de Marianita, jazia ti’ Joana de sorriso radioso. Junto das suas flores, passeavam duas pombas brancas.

 

          Nunca, ninguém conseguiu saber nada sobre ti’ Joana. Ninguém lhe conhecia família. Apenas sabiam que era a ti’ Joana que vendia flores à porta da igreja. Nesse dia ti’ Joana apareceu no jornal, fora publicada uma nota que dizia: “Faleceu durante esta noite a ti’ Joana que vendia flores junto á igreja. Desta forma pretendemos prestar a nossa homenagem.”.

 

  Nesse dia, todos os que a conheciam lhe quiseram prestar homenagem.

 

        Marianita inconsolável rezava. Pedia perdão por ter chegado tarde demais e desejava-lhe que ao menos agora tivesse direito a uma vida condigna.

 

             Os dias passaram-se e tudo parecia voltar ao normal. Marianita começou então a reparar, que perto do sítio onde ficara a ti’ Joana naquela noite, existia um pequeno largo térreo, onde nascera uma roseira bravia. De dia para dia a roseira crescia e nasciam lindas rosas.

 

     Um dia, quando Marianita ia a passar, uma pomba branca pousou-lhe no ombro. Quando olhou, reparou que esta trazia no bico, um botão de rosa bravia. E desde esse dia sempre que Marianita por ali passava, erguia os olhos tristemente para o céu e sorria, aguardando uma pomba branca que sempre lhe trazia no bico um botão de rosa bravia.

 

 

 

Flora Rodrigues

 

1999

  Conto de ficção de minha autoria
foto das fotos do sapo  álbum de Aiaiai300

Quem é a cozinheira?

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