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Sopa De letras

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

A Chamada

 

Do outro lado da sala o telefone tocou. Ela correu a atender. Levantou o auscultador. Esboçou um inseguro “Estou...”. Mas do outro lado da linha, apenas uma leve respiração e a seguir o som do desligar. Era a terceira vez que esta cena se repetia. Pensou deixar o telefone fora do auscultador durante algum tempo, mas aguardava chamada do marido, que tinha viajado. Claro! Como estava a ser tonta. Provavelmente era ele que estava com dificuldades em estabelecer ligação. Ligou a Rádio. Estava frio. Ligou o aquecedor.

 O telefone voltou a tocar. Mais calma voltou atender. Do outro lado da linha uma voz se fez ouvir.

-         Estou? És tu Luísa,?

-         Sim. Mas...

-         Não me estás a conhecer? Lembras-te daquele com quem costumavas dançar ao luar? Acordar deitada na areia?

-         Ricardo!!! Mas já passaram dez anos como me descobriste?

-         Nunca te perdi o rasto Luísa. Nunca! Lembro-me de ti todos os dias. Ao acordar, ao deitar. Durante as refeições. Durante as noites de insónia. Quando danço sozinho ao luar.

-         Ri...

-         Não digas nada. Deixa-me falar. Esta será provavelmente a última vez que me vais ouvir. Esta será provavelmente a última vez que te irei ligar. Eu sou a tua sombra. Persigo-te noite e dia. Sei tudo sobre os teus passos. Mudaste de casa, mudaste de emprego. Casaste.

              Estás talvez um pouco mais velha e mais forte do que quando eras a minha musa inseparável. Mas estás ainda mais bela do que eras. E eu estou só, porque tu aprisionaste a minha alma no teu ser. Embriagaste o meu ser com o néctar licoroso dos teus beijos. E a tua voz doce e suave ainda me murmura aos ouvidos doces palavras de amor prometendo-me a felicidade eterna que me negaste.

 

   -   Vou d...

 

  -   Não desligues. Por favor não desligues. Podes dizer que sou louco. Talvez tenhas razão. Sou louco, louco por ti. Enlouqueci de paixão. Perdi de vez a razão. Mas não perdi o meu amor por ti. Por isso peço-te que me ouças. Esta é última vez que me ouvirás. Sei que já nem a minha voz tu reconheceste. Mas eu... eu nada de ti esqueci. Reconheço ainda o balançar do teu andar no meio de multidões. Quis desistir de ti. Esquecer-te. Mas a imagem de ti com outro homem é-me impossível de aceitar!

                   Tens uma casa recheada de conforto. Um marido, uma família. E eu ... não tenho nada.

Sei que ainda não desligaste, ouço o teu respirar! Ouviste, não aceito que me esqueças.

Estou mais perto de ti do que possas imaginar. Agora se quiseres podes falar.

 

-         Mas onde estás Ricardo?

-         Vejo que ninguém te encontrou. Ninguém te disse que eu morri? Que me matei quando casaste?

-         Deixa-te de brincadeiras de mau gosto. Os mortos não telefonam.

-         Tens a certeza? Então desliga o teu telefone da ficha.

-         Podes ter a certeza que o vou fazer! Já te aturei mais do que devia.

 Se bem o disse, melhor o fez. Mas assim que Luísa acabou de desligar o telefone da ficha. Este voltou a tocar. Exasperada tirou o auscultador do descanso. Mas o telefone continuava a tocar ininterruptamente.

 Foi invadida por um frio arrepiante quando ouviu uma voz a seu lado:

-         Vim buscar-te para uma dança ao luar...

Enquanto Luísa tentava em vão parar de rodopiar, uma sinistra gargalhada ecoava no ar.

 

 

 

(conto inspirado numa chamada anónima recebida por mim)

11/12/01

Flora Rodrigues

 

Imagem retirada da internet.

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