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Sopa De letras

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

Vinha à procura de sopa? Aqui há , mas só de letras! Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora.

O Cata-Molas

    

O Cata-molas é um vizinho que tenho por sinal até simpático. Ele e a esposa foram os primeiros vizinhos que eu conheci quando vim para aqui morar. Quando tivemos alguns problemas em relação ao prédio, foi com ele que fui falar e as coisas resolveram-se. Ainda há bem pouco tempo quando resolveram estacionar bem em frente à minha garagem tirando o pouco espaço que tenho de manobra foi ele que, me ajudou a tirar o carro da garagem. E o senhor que é taxista e que por isso deve conduzir melhor que eu, também reconheceu que aquela manobra com o carro ali estacionado é bem difícil. O Cata-molas é até um vizinho simpático e pacífico, quando chega depois de deixar a viatura bem polida, vai cuidar da sua hortinha. Às vezes até cozinha uns grelhados cheirosos na sua garagem. É até uma personagem bonacheirona e até aposto que a sua esposa anda muito satisfeita, pois o senhor é muito poupadinho. De certeza que de vez em quando até deve dar umas prendinhas à esposa, mesmo que essas prendinhas sejam as minhas molas da roupa!

 Pois foi à conta disso que o meu vizinho ganhou este belíssimo cognome da minha parte. É que enquanto estendo a minha roupa, se deixo cair alguma mola, é garantido que o Cata-molas a apanha. O mais engraçado é que ele olha para um lado e para o outro, mas nunca lha para cima para me ver com a minha cara de: “-Oh não a minha molinha, outra vez, não! Nem me dá tempo de as ir buscar. “

 Já pensei dizer: _ Hei vizinho, essa mola que acabei de a deixar cair, não se importa de ma devolver?

   Mas não são sei porquê algo me impede. O pior é que tenho cada vez menos molas. Acho que qualquer dia quando me voltar a cruzar com a esposa, vou ganhar coragem e vou-lhe dizer: Ai, vizinha tem sorte em ter um homem tão poupadinho! Ele não lhe oferece molas todos os dias?

 E esperar que ela faça uma cara de surpresa e perguntar: - Como é que sabe? Para poder responder:

- É simples, o seu marido apanha todas as molas que eu deixo cair enquanto estendo a roupa. Só pode ser um homem poupado...

                                                                                                            


 

Caos




Amo a calma da noite,
Amo a fúria do mar,
Amo a força do fogo,
e a magnanimidade da tempestade.
Amo o brilho dos raios
e o ribombar dos trovões,
Amo a ira dos Vulcões
e o poder da terra a tremer.
Amo o capricho dos ventos a passar
e dos rios a transbordar.
Amo a canção do cisne que vai morrer
e o desespero de quem viver.
Amo por amar,
amo sem querer,
a plenitude de um mundo que não sabe...
ser!



Ilustração: fotos do sapo album de folião

A Chamada

 

Do outro lado da sala o telefone tocou. Ela correu a atender. Levantou o auscultador. Esboçou um inseguro “Estou...”. Mas do outro lado da linha, apenas uma leve respiração e a seguir o som do desligar. Era a terceira vez que esta cena se repetia. Pensou deixar o telefone fora do auscultador durante algum tempo, mas aguardava chamada do marido, que tinha viajado. Claro! Como estava a ser tonta. Provavelmente era ele que estava com dificuldades em estabelecer ligação. Ligou a Rádio. Estava frio. Ligou o aquecedor.

 O telefone voltou a tocar. Mais calma voltou atender. Do outro lado da linha uma voz se fez ouvir.

-         Estou? És tu Luísa,?

-         Sim. Mas...

-         Não me estás a conhecer? Lembras-te daquele com quem costumavas dançar ao luar? Acordar deitada na areia?

-         Ricardo!!! Mas já passaram dez anos como me descobriste?

-         Nunca te perdi o rasto Luísa. Nunca! Lembro-me de ti todos os dias. Ao acordar, ao deitar. Durante as refeições. Durante as noites de insónia. Quando danço sozinho ao luar.

-         Ri...

-         Não digas nada. Deixa-me falar. Esta será provavelmente a última vez que me vais ouvir. Esta será provavelmente a última vez que te irei ligar. Eu sou a tua sombra. Persigo-te noite e dia. Sei tudo sobre os teus passos. Mudaste de casa, mudaste de emprego. Casaste.

              Estás talvez um pouco mais velha e mais forte do que quando eras a minha musa inseparável. Mas estás ainda mais bela do que eras. E eu estou só, porque tu aprisionaste a minha alma no teu ser. Embriagaste o meu ser com o néctar licoroso dos teus beijos. E a tua voz doce e suave ainda me murmura aos ouvidos doces palavras de amor prometendo-me a felicidade eterna que me negaste.

 

   -   Vou d...

 

  -   Não desligues. Por favor não desligues. Podes dizer que sou louco. Talvez tenhas razão. Sou louco, louco por ti. Enlouqueci de paixão. Perdi de vez a razão. Mas não perdi o meu amor por ti. Por isso peço-te que me ouças. Esta é última vez que me ouvirás. Sei que já nem a minha voz tu reconheceste. Mas eu... eu nada de ti esqueci. Reconheço ainda o balançar do teu andar no meio de multidões. Quis desistir de ti. Esquecer-te. Mas a imagem de ti com outro homem é-me impossível de aceitar!

                   Tens uma casa recheada de conforto. Um marido, uma família. E eu ... não tenho nada.

Sei que ainda não desligaste, ouço o teu respirar! Ouviste, não aceito que me esqueças.

Estou mais perto de ti do que possas imaginar. Agora se quiseres podes falar.

 

-         Mas onde estás Ricardo?

-         Vejo que ninguém te encontrou. Ninguém te disse que eu morri? Que me matei quando casaste?

-         Deixa-te de brincadeiras de mau gosto. Os mortos não telefonam.

-         Tens a certeza? Então desliga o teu telefone da ficha.

-         Podes ter a certeza que o vou fazer! Já te aturei mais do que devia.

 Se bem o disse, melhor o fez. Mas assim que Luísa acabou de desligar o telefone da ficha. Este voltou a tocar. Exasperada tirou o auscultador do descanso. Mas o telefone continuava a tocar ininterruptamente.

 Foi invadida por um frio arrepiante quando ouviu uma voz a seu lado:

-         Vim buscar-te para uma dança ao luar...

Enquanto Luísa tentava em vão parar de rodopiar, uma sinistra gargalhada ecoava no ar.

 

 

 

(conto inspirado numa chamada anónima recebida por mim)

11/12/01

Flora Rodrigues

 

Imagem retirada da internet.

Micro-conto 2-A melhor prenda de Natal

Antes de mais Micro-contos são contos pequeninos que só podem conter 600 caracteres incluindo espaços. Por isso apesar de pequenos são extremamente difíceis de escrever de forma a não perderem o sentido. Este segundo micro conto foi escrito para os Anjos de Prata.

A melhor Prenda de Natal


 

Os pais estavam tristes, porque apesar de se orgulharem da linda filha, ao fim de ano e meio, ela ainda não ainda falara única palavra. Os médicos eram da opinião que tudo estava bem. A mãe rezara para que a filha dissesse pai, mãe, ou outra palavra, queria apenas ouvi-la falar. Naquela noite, fosse pelo brilho do Pinheiro de Natal, das luzes que piscavam, das prendas coloridas ou pela alegria dos convivas na consoada, os olhos brilharam-lhe, o sorriso iluminou-se e a muito custo conseguiu articular as suas primeiras palavras com perfeição: - Feliz Natal!

Foi a melhor prenda daquele Natal.



 

Foto do sapo album de Paulo Guerrinha



No principio…


Serei para sempre aquela que sempre foi e será imortal. Derrotei reis e rainhas. Fui a causa de traições. Fiz cair impérios. Uni pessoas, separei-as. Casei-as pelo poder da minha força. Pelo mesmo poder as separei. Iludi multidões. Criei e gerei nações. Fui a causa de muitas discussões. O ponto de partida para muitas guerras. A salvação de muitas terras. Sou a morte e a salvação de muitos.

 

 

 

Sou a memória que não ficou perdida, que passou de boca em boca, de gerações em gerações. Sou a História que não ficou por contar. O poema, a trova de encantar. A serenata que os apaixonados cantam ao luar. Sou fábrica de ilusões, de contos de encantar.

 

 

 

Fui carrasco na voz de ditadores, Imperadores, Usurpadores. Fui rainha na voz de profetas que por mim e através de mim conquistaram multidões.

 

 

 

 

 

Fui a sorte de uns e o azar de outros. Sou para muitos doces recordações e para outros amargas ilusões.

 

 

 

Sou conquista na voz de crianças e armadilha na voz de alguns adultos. Sou arma invencível. Sou espada inquebrável, sou força indomável, sou veneno letal.

 

 

 

 

 

Sou eu e apenas verdadeiramente imortal, mesmo antes do princípio era apenas eu a Palavra que existia.

 

 

 

 Afinal diz que sabe no princípio era o Verbo.

 

Foto da Internet

Micro conto - NOITE DE NATAL

 

Finalmente tinham chegado ao destino. Maria e José estavam cansados da viagem. Era meia -noite do dia vinte e cinco de Dezembro. Entraram e viram os aposentos. As instalações eram simples, mas novas e confortáveis. Não era um estábulo, nem havia animais. Mas ambos sabiam que naquela noite um grande milagre ia acontecer. Não muito. Maria chamou a enfermeira e disse-lhe que já não aguentava as dores. José aguardava nervoso e emocionado. Aquele era o momento esperado. A enfermeira anunciou: é uma menina! José chorou de felicidade: o testemunho do seu amor tinha ganho vida!

 

 

foto da minha filha recém -nascida

 

Números de crianças desaparecidas em Portugal

"No que concerne à faixa etária até aos 12 anos na qual se abrange todo o universo do conceito de “criança”, verificaram-se, as seguintes participações de desaparecimentos:
2005= 93
2006= 160

Já no presente ano de 2007, desde 1 de Janeiro até 10 de Maio, constata-se a existência de :
637 participações efectuadas; das quais 63 se reportam a crianças até aos 12 anos.

Na data aludida a Polícia Judiciária já tinha concluído com êxito a maioria das investigações geradas pelas referidas participações, encontrando-se neste momento em investigação activa 132 casos dos quais 54 se referem a menores de 18 anos."

fonte site da Pollícia Judiciária

Porque é que só se fala de Madeleine?

Quando existe este número de crianças desaparecidas em Portugal?????!!!!!!!!!
Quem são as crianças desaparecidas portuguesas de que os nossos jornais não falam?

Sempre gostei de conhecer outros povos e culturas ,mas este servilismo português aos estrangeiros começa a irritar profundamente.

Uma noite de chuva...



A chuva caía impiedosa sobre as ruas sombrias da cidade fria. A noite chegara escura e tempestuosa à cidade, indiferente à azáfama, daqueles que regressando do trabalho, corriam apressadamente para o reconfortante abrigo que eram os seus lares. Nas ruas, apenas se ouvia o som ritmado da chuva e o ulular do vento, formando uma estranha melodia, de certo modo reconfortante para aqueles, que se encontravam abrigados no seu lar., sentados à mesa com o jantar a fumegar.
     Pouco a pouco, foram-se acendendo as luzes na cidade, luzindo ao longe como estrelas caídas no chão!

 

     Marianita, junto da lareira não conseguia esquecer o quadro triste que assistira ao regressar da escola. Ainda não tinha anoitecido, quando iniciara o seu regresso a casa. Mas a chuva parecera enegrecer o entardecer. Marianita seguia sozinha nas ruas semi- desertas, onde apenas circulavam alguns transeuntes mais incautos apanhados de surpresa, que procuravam abrigar-se . Marianita caminhava observando, como a cidade se tornara deserta e hostil naquelas horas. Gostava de apreciar tudo o que a rodeava enquanto seguia o seu caminho. Como a sua casa ainda era distante da escola, distraía-se apreciando tudo o que via no caminho. As “vendedeiras” de rua (como o povo lhes chamava) gritando:

 

- Oh, Menina! Compre que é a cem! Meias de senhora para fazer a perna bonita!

 

- Quentinhas e boas! Castanhas assadas...Olháá castanha assada! –

 

Por vezes não resistia ao fumegar das castanhas, que lhe assaltavam o nariz, despertando-lhe a gulodice, e acabava por comprar o tradicional cartuchinho de castanhas feito de jornal. Entretinha-se então a comer as castanhas pelo caminho e quando terminava, por brincadeira ia ver que notícias vinham de “brinde” no cartucho das castanhas. No outro lado da rua, via uma mãe passeando carinhosamente o seu bebé, que mostrava com orgulho às amigas que encontrara por acaso. Via os lojistas darem os últimos retoques para o fecho das suas lojas. Pelas ruas da cidade ouvia-se falar de tudo um pouco: da vida que estava cada vez mais cara, das guerras intermináveis que todos os dias apareciam nos noticiários da televisão e nas páginas dos jornais; dos políticos que nada faziam e tudo prometiam; da doença estranha da vizinha; e uma infinidade de coisas triviais, mas que pareciam dar uma vida própria à cidade, como se estas fosse um quadro vivo. Pelo caminho via ainda algumas pessoas que passeavam o seu cãozinho ou cães que passeavam os donos, como lhe dissera uma vez um amigo, após assistirem a um aparatoso trambolhão de um dono que não conseguira segurar o seu cão! E Marianita ia pensando naquelas pessoas como personagens de um romance, que ela achava real. Pois não eram os romances, retratos fantasiados da vida?

 

         Mas naquele dia, não era nenhuma dessas imagens que lhe permanecia na mente. Era uma imagem bem diferente e bem triste. A vida na cidade, não torna de pedra só as paredes das casas, mas também o coração daqueles que a habitam. Habituados a conviver com as misérias da vida, as pessoas acabam por se habituar a lhes passar ao lado. Mas quando a miséria bate à porta daqueles que de alguma forma nos tocam o coração, algo muda e faz-nos recordar que afinal, somos humanos e não animais em luta pela sobrevivência numa selva de pedra.

 

  Marianita reparara ao passar pelas escadas da Igreja, que a Ti ‘Joana ainda aí se encontrava. Abrigada no vão das escada, embrulhada em sacos plásticos de recolher o lixo. Todos conheciam aquela velhinha que vendia flores junto à igreja. Todos sabiam quem era a Ti ‘Joana, mas poucos sabiam da miséria em que vivia.
        Ela tinha grande simpatia pela Ti’ Joana como todos os que a conheciam. Por vezes observava-a e ficava a pensar que deveria ter sido muito bonita na sua juventude, aquela velhinha. Pequenina, já encurvada pelo peso dos anos, de cabelos alvos, tez tisnada pelo sol e olhos redondinhos, muito vivos, brilhantes como safiras. Mas o que ela achava ainda mais bonito na ti’ Joana, era o seu sorriso radioso, que parecia aquecer o coração daqueles que por ela passavam.

 

   Todas as tardes passava por ali, e dava dois dedos de conversa com a ti ’Joana:

 

- Então ti’ Joana como vai?

 

- Cá estou minha flor, cá estou! E a menina como vai a sua escola? - Marianita respondia

 

- Ora, vai indo! Às vezes é difícil mas tem de ser! E a ti’ Joana sempre dizia:

 

- Estude minha flor, estude para ser alguém. Olhe que eu não pude e acabei aqui, a vender flores à porta da igreja, na minha velhice – e nisto levantava-se  e oferecia-lhe uma flor que ela não queria aceitar,( por compaixão), mas ti’ Joana insistia :

 

- Se não aceitar, fico triste consigo. Mais a mais, a menina tem-me comprado tantas, que essa não me deixa pobre. E agora vou arrumando, que me vou recolher! - Marianita beijava a face da velhinha em jeito de agradecimento e despedia-se:

 

 -Até amanhã ti’ Joana.

 

- Até amanhã se deus quiser, minha flor – respondia-lhe a ti’ Joana e sumia-se vagarosamente pelas ruas estreitas na traseira da Igreja.

 

                  Todos sabiam quem era a ti’ Joana que vendia flores na porta da Igreja todos a conheciam, mas muito poucos ou nenhuns sabiam da miséria em que vivia. Só naquela tarde chuvosa de inverno Marianita se apercebeu dessa situação.

 

- Ti’ Joana não vai para casa? Olhe que com esta chuva e sem agasalho fica doente!

 

- Oh, minha flor! Estou à espera que me venham avisar se há vaga no Albergue. Com esta chuva costuma estar cheio. Mas eu não pude ir lá mais cedo! – Marianita ficou espantada.

 

 -Albergue?! Então a ti’ Joana não tem a sua casa? - Perguntou admirada.

 

-Oh, minha flor! A pensão não dá para pagar uma renda e o que ganho com as flores, dá-me para comer e já pouco me sobra para o resto! – Muda de comoção, a rapariga sentiu as lágrimas a rolarem-lhe pela face abaixo. Mas para que, ti’ Joana não se apercebesse, retirou o guarda – chuva rapidamente e afastou o rosto, que molhado pelas lágrimas de chuva, disfarçava as lágrimas de compaixão. De seguida, retirou o sobretudo e num gesto espontâneo saído do coração, agasalhou com ele a velhinha que reclamava com Marianita para não o fazer. Mas esta respondeu-lhe:

 

-Agora quem fica triste consigo, se não aceitar sou eu! Eu já estou perto de casa! - E nisto abriu o guarda – chuva e pousou-o na mão de ti’ Joana para esta se abrigar dizendo-lhe ainda:

 

-Espero que consiga lugar no albergue depressa e que pelo menos esteja mais aconchegada, enquanto espera.

 

-Eu bem digo que você é uma flor – e puxando-a junto a si, cobriu-lhe o rosto de beijos, enquanto lágrimas rolavam pelo seu mimoso rosto enrugado. A rapariga deu-lhe um beijo no rosto e desprendeu-se suavemente.

 

-Agora tenho que ir depressa, por causa da chuva! – Desculpou-se e desatou a correr sem parar, numa ânsia desenfreada de chegar a casa. As lágrimas corriam-lhe incontrolavelmente pelo rosto. Ia tão triste, tão chocada, que já nem sentia a chuva, nem distinguia as suas lágrimas das gotas da chuva. Sentia-se sem forças para lutar contra aquela miséria. Se a casa fosse dela, mais que não fosse aquela noite, a Ti’ Joana teria cama, comida e roupa lavada. Mas a casa não era sua, era de seus pais e estes austeros como o eram não o permitiriam. Quando chegasse a casa teria de dizer que se tinha esquecido do sobretudo em casa de uma amiga, onde fora lanchar que se esquecera dele na escola, alguma desculpa arranjaria. Mas não foi preciso. Ninguém a viu chegar, e quando a viram, junto à lareira, já tinha tomado banho e encontrava-se de roupão e chinelos. Mas naquele momento, não era o facto de ter dado o sobretudo que a preocupava. Não conseguia tirar da sua mente a imagem da ti’ Joana, tão velhinha, tiritando de frio, mal abrigada da chuva e do vento, na iminência de passar uma noite ao relento. Um rodopio de pensamentos assaltava-lhe a mente constantemente. Ti’ Joana não teria família? Filhos, sobrinhos? Alguém que a acarinhasse na sua velhice? E pensando nisto tudo, ficava cada vez mais triste. A ideia de tentar ajudar aquela velhinha não lhe saía da ideia da cabeça. Mas que poderia fazer ela com os seus dezoito anos e sem recursos próprios? De repente teve uma ideia! Iria falar com D. Irene, a sua vizinha. Sabia que ela era assistente social e tinha e especial simpatia por este tipo de situações. De certeza que iria fazer alguma coisa. Era isso! Amanhã, bem cedinho iria juntamente com D. Irene falar com a ti’ Joana e veriam como a poderiam ajudar. Mas a imagem de ti’ Joana dormindo ao relento naquela noite fria e chuvosa, não lhe saía da cabeça.

 

           Perto de sua casa, junto à igreja continuava Ti’ Joana, que rodeada das flores que sobravam e aconchegada pelo sobretudo de Marianita, se deixara dormir, vencida pelo cansaço dos anos. E sonhava. Tinha sonhos lindos. Sonhava com uma cama quentinha, com lençóis de linho. Sonhava que Marianita vivia com ela e a beijava antes de adormecer. Depois o sonho mudava. Sonhava com flores. Sonhava que estava num prado imenso rodeada de flores por todos os lados. Via pombas brancas a, esvoaçar sem parar como se estivessem a dançar. Entretanto, paravam de dançar e uma pomba vinha-lhe pousar no ombro. Qual não era o seu espanto ao perceber que a pomba lhe falava e ela a percebia! A pomba dizia-lhe:

 

- Vem connosco ti’ Joana! Agora podes voar. Neste prado, não há frio, não há fome, não há tristeza e tudo é possível! Voa connosco. Vem, que nós levamos – te ao encontro de tua mãe. E ela respondia.

 

- Mas minha mãe, já morreu há tantos anos! - Então as pombas diziam:

 
 

-Ninguém morre. Apenas viajamos. Vem connosco!
E ti’ Joana sorriu e voou com as aves.

 

       No dia seguinte, Marianita levantara-se bem cedo e como planeara fora falar com D. Irene. Esta acedeu de imediato ao seu pedido e juntas dirigiram-se à igreja. Aí, encontrava-se já um pequeno grupo de pessoas junto ao vão da escadas, deixando escapar alguns lamentos de compaixão. Alguns inquiriam se alguém sabia se ti’ Joana tinha família. Marianita, de coração apertado aproximou-se. Deitada numa cama de sacos de lixo, aconchegada no sobretudo de Marianita, jazia ti’ Joana de sorriso radioso. Junto das suas flores, passeavam duas pombas brancas.

 

          Nunca, ninguém conseguiu saber nada sobre ti’ Joana. Ninguém lhe conhecia família. Apenas sabiam que era a ti’ Joana que vendia flores à porta da igreja. Nesse dia ti’ Joana apareceu no jornal, fora publicada uma nota que dizia: “Faleceu durante esta noite a ti’ Joana que vendia flores junto á igreja. Desta forma pretendemos prestar a nossa homenagem.”.

 

  Nesse dia, todos os que a conheciam lhe quiseram prestar homenagem.

 

        Marianita inconsolável rezava. Pedia perdão por ter chegado tarde demais e desejava-lhe que ao menos agora tivesse direito a uma vida condigna.

 

             Os dias passaram-se e tudo parecia voltar ao normal. Marianita começou então a reparar, que perto do sítio onde ficara a ti’ Joana naquela noite, existia um pequeno largo térreo, onde nascera uma roseira bravia. De dia para dia a roseira crescia e nasciam lindas rosas.

 

     Um dia, quando Marianita ia a passar, uma pomba branca pousou-lhe no ombro. Quando olhou, reparou que esta trazia no bico, um botão de rosa bravia. E desde esse dia sempre que Marianita por ali passava, erguia os olhos tristemente para o céu e sorria, aguardando uma pomba branca que sempre lhe trazia no bico um botão de rosa bravia.

 

 

 

Flora Rodrigues

 

1999

  Conto de ficção de minha autoria
foto das fotos do sapo  álbum de Aiaiai300

Canção da meia-noite.

                                    
               Eu sou onda do mar 
               que, contra as rochas 
               
vai rebentar.
                Eu sou gota de água,
                que, ao rio vai parar.
                Eu sou brisa passageira,
                sou perfume efémero no ar,
                sou ave que se esqueceu de voaar.
                Eu sou a noite ligeira,
                que se esqueceu de acordar.
                Sou o sol que,

                se esqueceu de brilhar, 
                sou labareda de fumo 
               que, se espalha no ar;
               Sono que se esqueceu de sonhar.
               Vida que se esqueceu de viver. 
               Lágrima que não quis cair, 
               fonte que se esqueceu de jorrar. 
               Sou sol, sou nuvem no céu a brincar 
               sou apenas,
               Vento que vai a passar.

  
Fotografia gentilmente cedida por João Palmela

 

 

Quimera de almas

glitter graphics

Angel Glitter Graphics

Sinto que estás perto. Sinto o teu calor, o teu cheiro. A tua presença paira no ar. Sigo as cores e os aromas que me indica o teu rasto, pois sei que te pertencem. Não conheço o teu rosto. Mas conheço a tua alma melhor do que a minha. Sinto que estamos unidos num destino fatal. Fatal de incontornável. Sei que me pertences. Sinto que te pertenço. Prossigo na minha busca. Olho em redor e não te vejo. Estou cega, ofuscada pela luz do desejo. Obnubilada por esta quimera ingrata de te encontrar. Mas o desejo é mais forte do que eu.

 

Sei que também me sentes, que me buscas e me persegues. Persegues o meu cheiro, as minhas cores, sentes a minha presença no ar. Desconheces o meu rosto. Mas conheces plenamente a minha alma. É ela que te guia, que clama por ti através dos tempos, de todas as dimensões, de todos os mundos. Sinto que também o desejo te consome e a luz do desejo te ofusca.

 

 

 

Buscamos o nosso rasto cegamente. Cegos de paixão. De uma paixão mais forte que a razão. Descrevemos círculos intermináveis, caminhos elípticos e perdemo-nos no vácuo do infinito, nesta quimera desesperada das nossas almas para se reencontrarem.

 

Mas a voz do infinito sussurra que estamos mais próximos do que pensamos. Sentimo-nos porque caminhamos lado a lado, tão perto que o nosso respirar se pode cruzar. Traçamos rotas de destino paralelas. Mas o nosso destino é fatalmente incontornável.

 

O desencontro não será eterno, quando a paixão deixar de nos cegar, encontrar-nos-emos nos caminhos da razão, a nossa quimera findará e o nosso destino será finalmente cumprido, vencendo as malhas do tempo.

 

 

Mas para já continuarei a seguir o teu rasto até que o despertar surja e nos possamos encontrar desfazendo o grande equívoco do tempo que é o nosso desencontro.

 

 

30/05/03

 

 

Flora Rodrigues



Pégadas de Areia



Era uma vez, outra vez o mar…

Marisol de olhos tristes e sonhadores, mais uma vez passeava descalça junto ao mar. O dia inda não rompera por completo, só agora se viam os primeiros raios de sol a se espreguiçar. Mas, todos os dias, àquela hora, Marisol passeava descalça junto ao mar. Aguardava a chegada do pai, que regressava da sua faina por aquela hora.

      Desde que se entendia por gente que gostava de aguardar a chegada do pai e ver os pescadores recolherem as redes. Quando a pesca era boa alegria, era tanta que parecia uma festa, e se por acaso calhava alguém passar na praia àquela hora, tinha por vezes a sorte de ser brindado com algum peixinho fresquinho, que assim “caído” do mar para o prato até sabia melhor.

     Mas quando a pesca não rendia, quase não se ouvia nenhum som, a não ser o suave marulhar das ondas e o pesado arrastar das redes vazias, anunciando, pratos vazios e dias de fome. Mas apesar de tudo os piores dias não eram esses, pois pouco tempo depois, com a graça de Deus (e dos peixes), tudo se compunha. Os piores dias eram aqueles em que por força da necessidade os pescadores se lançavam ao mar bravio e não mais tornavam. Os piores dias eram aqueles em que os pescadores por vezes eram surpreendidos com o mau tempo e só  a muito custo regressavam.

           Naquele dia Marisol acordara com um estranho pressentimento. Dirigira-se para a praia mais cedo que o costume e agudizaram-se os seus medos. Das letras pouco sabia, (apesar das suas catorze primaveras já contadas), mas sabia ler nas nuvens e nas ondas a vontade do mar. E naquele dia o mar parecia-lhe bravo, enraivecido, irado por tudo e por nada, como um homem que em certos dias acorda zangado com a vida.

             As horas passavam-se e a embarcação de seu pai não regressava. O mar cada vez mais irado encapelava-se.

               Marisol ajoelhara-se na areia, as ondas por vezes acariciavam-lhe os joelhos deixando-lhe a saia molhada, e rezava pedindo que seu pai regressasse. A praia enchera-se de mulheres de, algumas vestidas de negro pelo mar lhes ter roubado os seus maridos. Falavam entre si e choravam, antevendo a mágoa de uma morte anunciada. Mas, Marisol permanecia queda e muda, olhos fitos no mar e pensamento firme em Deus, ignorando tudo em seu redor, como se, só  ela, a praia e o céu existissem naquele momento.

      E, de repente, fosse pela reza de Marisol, ou porque a hora de seu pai ainda não tinha chegado, ou porque a vontade de Deus assim o queria: o mar amainou, o sol brilhou com mais força e o barco de seu pai regressou, com mais companheiros que tinham salvo de morte certa, motivo pelo qual se tinham atrasado tanto naquela manhã.

           Marisol ergueu-se e abraçou o pai assim que este chegou, chorando de alegria e alívio. Mais tarde dirigiu-se à capelinha para levara flores, para agradecer a Nossa Senhora a protecção a seu pai e seus companheiros e qual não foi o seu espanto, quando, ao começar arranjar as flores, verificou que os  pés da santa se encontravam cobertos de areia húmida, olhou para trás e reparou que um rasto de pequenas pegadas marcadas de areia húmida conduziam ao altar da santa.

 

Conto de ficção da minha autoria inspirado as lendas que a minha avó materna exímia contadora de histórias, natural de Olhão e filha de pescadores me contava na infância.

 Ilustração das fotos das fotos do sapo álbum de Nunoeninha







Quem é a cozinheira?

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Espreitar no caldeirão.

 

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