Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007
Vida Conjugal


Foto de Tasliim das fotos do sapo



A história deles podia ser uma história como tantas outras, não fosse o facto de nos dias que correm já ser raro encontrar um casal que tivesse partilhado sessenta anos de vida conjugal. Era esse o facto que os tornava especial e era esse mesmo facto que intrigava os que os rodeavam. Seria possível manter uma relação durante tanto tempo sem que o amor esmorecesse? Mesmo porque eles formavam um casal tradicional e conservador. O que retirava a hipótese terem recorrido aos artifícios modernos da imaginação apimentada pelos produtos disponíveis nas “Sex – Shops”. Ou apenas fingiam que eram um casal conservador? Mas se o faziam enganavam muito bem.

 

Não faltavam a uma missa de domingo. Os filhos foram educados no maior rigor e todos foram baptizados e frequentaram a catequese. Dispunham de boas maneiras e educação esmeradas. O casamento tinha sido católico e a noiva tinha desfilado vestida de branco cândido e coroada de flores de laranjeira como mandava o figurino. Ela tinha fama de irrepreensível dona de casa, ele de chefe de família imaculado. Não, não parecia que fingissem ser um casal tradicional e conservador, ao fim de tantos anos, se fosse fingimento alguma falta haviam de ter revelado. Teriam um cometido um pequeno deslize se é que se poderia chamar a isso de deslize. Seria aquele um casamento de verdade ou apenas uma fachada de felicidade em que um dos dois se apagava deliberadamente para que outro brilhasse? Teriam realmente sido felizes?

 

 

Se não o foram, enganaram toda a gente, pois ainda hoje o parecem ser, mas o que intrigava toda agente é que eles próprios afirmavam ao fim de tantos anos já não era o amor que importava, embora reafirmassem a grande paixão que os uniu, a emoção do primeiro olhar, do primeiro beija – mão e dos primeiros beijos trocados a medo, à pressa escondidos dos olhares atentos dos pais vigilantes da época. Se apesar de tudo isso já não era o amor o que vinha depois do amor?

 

 

Esse era o segredo: o que vinha depois do amor. A sabedoria para lidar com as primeiras desilusões, o companheirismo, a cumplicidade, entendimento tácito, o conhecimento da complexa natureza humana, um sentimento muito maior que o próprio amor, mas que só percebe e compreende quem viveu um grande amor, mas que por ser tão grandioso, esse sentimento nunca ganhou nome próprio.

 

Era isso que eles respondiam a quem lhes perguntava o segredo. Terminando sempre com o mesmo conselho: “ Amem-se sempre como nos tempos em que namoravam até perceberem que esse amor não pode crescer mais e depois do amor…” aqui calavam-se e trocavam um olhar cúmplice que valia mais de mil palavras….

 

 

 

 

25 de Outubro de 2004  Flora Rodrigues



Sopa servida Alfa às 17:24
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4 comentários:
De Lua de Sol a 27 de Setembro de 2007 às 17:55
Independentemente do que é a paixão, o amor... este casamento foi um casamento feliz. O segredo para tal está nos sentimentos experimentados num passado que resultou num novo no presente. O que sentem é fruto do que sentiram. Mas não acredito que seja um segredo que se possa seguir, só esperar que se possa sentir...
Beijocas


De Alfa a 27 de Setembro de 2007 às 18:52
Sim cada casal tem o seu universo. O texto é de ficção mas tive o prazer de conhecer um ou dois casais que aqui se encaixariam. Mas é ao sentir que na verdade me refiro
"um sentimento muito maior que o próprio amor, mas que só percebe e compreende quem viveu um grande amor, mas que por ser tão grandioso, esse sentimento nunca ganhou nome próprio."
obrigada
beijinhos volta sempre


De daplanicie a 13 de Outubro de 2007 às 10:06
Prestes a completar 27 anos de casamento comsigo entender muito bem este post. Na minha opinião, o segredo não será apenas um, cada casal terá que encontrar o seu.
Cumprimentos


De Alfa a 15 de Outubro de 2007 às 01:07
Parabéns pelos 27 anos de casamento. A mim faltam-me 20 anos. Inspirei-me num casal conhecido com muitos mais anos de casamento do que eu.


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