Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Uma vida banal
Os cabelos finos esvoaçam soltos brilhantes ao vento, como raios de sol que pareciam querer seguir rumo próprio. Os olhos brilhavam cheios de vida e os lábios sorriam entre o silêncio e as palavras que hesitavam em sair. Sentia-se cheia de nada e de tudo. Olhava em redor, pensava em si, na vida. Gostava do que tinha conseguido, mas não tinha conseguido nada, ou muito do que queria. A vida passava impiedosa e o tempo não voltava atrás.

 Olhava no horizonte e via a criança que outrora fora, sentada sozinha, quase sempre sozinha, na companhia dos seus brinquedos. Não eram muitos, mas o que tinham chegava, pois tinha um que valia mais do que todos a sua imaginação. Um seringa vazia sem agulha e era enfermeira. Sonhou que o seria realmente quando crescesse. Queria ajudar os feridos de guerra.

 

 Um quadro e um giz e era professora e pintora. Às vezes os cacos de tijolos arredondados apanhados na rua serviam de pratos e travessas para os jantares das suas bonecas. os cubos de puzzles também serviam para construir casas de brincar. E assim sozinha no meio dos seu brinquedos, do nada e da solidão, aprendera a sonhar. Às vezes para se entreter contava histórias a si própria, historias que imaginava para não se sentir tão só. Por vezes quebravam-lhe a solidão, quando a chamavam para ir comer. Depois regressava ao seu mundo, a sua varanda, os seus brinquedos, e os seus sonhos.

 

Por momentos voltava ao presente e via apenas o sol que se despedia, sentia os cabelos a esvoaçar, depois tornava a olhar o Horizonte e via-se a crescer sozinha, no meio de tanta gente que a rodeava. Não valia a pena partilhar os pensamentos com ninguém. Ninguém entendia que os seus pensamentos tinham crescido muito mais depressa que as suas pernas. Revia várias fases boas e más da sua vida e…, de repente viu-se reflectida a si própria poucos anos antes daquele momento. Sentiu uma onda enorme de carinho, de amor de calor, sentiu nos seus braços a vida frágil que acabara de nascer e um enorme sentimento de plenitude como nunca sentira antes a invadiu. Sorriu.

Agora reencontrava-se consigo, o pequeno ser eu gerara começava os pouco a ganhar as suas próprias asas e ela percebia que já era tempo de pensar em de novo. Começou a pensar nos sonhos que ficaram por cumprir. Ainda iria tempo de realizar alguns.

  Regressou a casa, com o caminho iluminado pela lua.

Vestiu o avental fez o jantar. O marido e a filha chegaram. Trocaram palavras banais e triviais.

Depois ela foi adormecer a filha. Por fim , sentou-se ao lado do marido e assistiram quedos e mudos ao programa de televisão a que ele prestava atenção, enquanto a mente dela viajava.

Antes de deitarem ela perguntou-lhe:

-Que sonhos deixaste para trás na vida?

Ele olhou-a surpreendido. Sorriu.

-Nenhuns. - Respondeu ele – Porquê?

- Por nada, deixa para lá. Lembrei-me.

-Vou-me deitar. - Anunciou ele sem dar grande importância à questão.

Ela voltou à carga:

-Então és feliz?

-Sim, sou muito. Tu não és?

-Claro que sou, deixa para lá é minhocas da cabeça de quem passou muito tempo sozinha. Vamos deitar-nos.

  Ela ficou a pensar que não mentira, mas não dissera a verdade. Uma parte dela era feliz. Outra clamava por mais, gritava que aquele mundo só não lhe chegava. Invejava-o porque ele conseguia ser feliz com o pouco que tinham. A vida banal de um casal banal. Não percebia porque é que isso a ela não lhe chegava.

  No dia seguinte calçou os sapatos vermelhos que reservara para ocasiões especiais e partiu em busca de alguns dos sonhos que ficaram por cumprir. Decidira que iria lutar por eles, mas que no fim do dia ia sempre regressar ao primeiro sonho que conseguira realizar: a sua família banal, mas que para ela era especial.

 Quem sabe um dia ela calçará mais vezes os sapatos vermelhos…

 

 

 

Conto de ficção escrito por mim.

Ilustração retirada da net .


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