Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
Sabor a azul do Céu...

 

 -Beija-me…- Disse ela de pé, para ele sentado a seu lado em cima do muro. Ele espantado, concentrou-se no silêncio que antecedera estas palavras. Devia ter imaginado algo. Desejava-o com tanta força que imaginava ouvir a voz ligeiramente rouca e doce dela pedir-lhe: beija-me.

-Ouviste o que te pedi?

-Desculpa, pensei que estivesse a imaginar.

-Porquê não me queres beijar? Perguntou ela num misto de tristeza e divertimento, mas honestamente intrigada..

-Sim. Quero. É o que mais quero. Não me estás a gozar?

-Porque haveria de o fazer?

-Não sei...

-Pára com isso e beija-me!

-Mas..

-Mas o quê?

-Mas eu só tenho doze anos e tu já tens catorze .

Ela riu-se.

-Tens com cada uma. Quero lá saber disso. Conheço-te desde que nasci. Hoje é o dia perfeito para me beijares.

Foi assim que sentado num muro por ser mais baixo do que, ela à luz da estrelas e do luar que ele deu o seu primeiro beijo.

-Gostaste?- Perguntou-lhe ela.

Ele ainda estava a viajar por entre a lua e as estrelas sem acreditar.

-Devo estar a sonhar.

-Não, não estás.-  E voltou a beijá-lo.

-A que te soube?

- A azul do céu, se as cores tiverem sabores este é o teu, sabes a azul do céu! E eu?

-A amoras frescas acabadas de colher.

 -Agora vamos para a nossas casas que já é tarde.

 -Amanhã, encontramo-nos?

-Sim- Disse ela com um brilho igual aos das estrelas nos olhos.

 

Mas não voltaram a encontrar-se senão passados dez anos. O tempo não passara por ela e a sua voz era inesquecível.

 

-Dá-me licença?

Ele virou-se.

-És tu? És mesmo tu?

-Eu quem? Respondeu ela divertida sem o reconhecer.

 - Não te lembras de mim? Crescemos juntos, brincávamos no muro junto ao telheiro de noite, fingíamos que éramos gatos e tudo o que se possa imaginar, um dia desapareceste e nunca mais soube ti. Tinham mudado de casa.

 

-Sebastião? Não acredito! -Lançou-se-lhe nos braços como se fossem crianças de novo. -Desculpa esta é tua namorada? – Perguntou um pouco atrapalhada notando uma presença feminina ao lado.- Ele riu.

-Não, não tenho ninguém É apenas a menina da loja.

-E tu?

-Nem namorado, nem marido. Mas chega aqui. Há uma pessoa que te quero apresentar.

 

Junto das prateleiras de livros infantis estava um menino cujo perfil era indubitavelmente o dela.

-Este é Sebastião. O meu filho. Foi por isso que parti sem nada dizer.

-O teu filho?

-Vamos tomar um café?

Dirigiram-se para a cafetaria da livraria .

-Sim. Foi por isso que te pedi um beijo naquela noite. Queria imaginar que ele era um pouqinho teu.

-E o pai?

- Nunca mais soube dele. Depois dele fazer o reconhecimento da criança nunca mais o vi. É o Mateus que era da minha turma. Os pais mandaram-no para Londres para casa de uma tia-avó. No entanto os pais dele mandam dinheiro todos os meses para o neto. Mas não o querem ver. Também sofri tanto que não preciso de mais nada e nem quero ver a cara de ninguém daquela família.

 

-Porque não me disseste nada.Eu tinha-te ajudado.

 

-Porque não queria destruir a imagem romântica que eu sabia que tinhas de mim. Além disso eras uma criança inocente. Dois apenas de diferença, eu sei, mas naquela altura era uma diferença enorme. Mas queria que tivesse sido teu, por isso quis sentir o teu sabor.

-Olá Sebastião...

-Olá, és o amigo da minha mãe que diz que as cores têm sabor?

Sebastião sorriu.

-Ela contou-te isso?

-Sim, perguntei à minha mãe a que sabiam os beijos. Ela respondeu que um dia um amigo lhe disse que sabiam a azul do céu…

.-Sim fui eu. Porque quiseste saber?

-Queria saber porque me chamava Sebastião e ela disse que foi por ser o nome da única pessoa que gostou dela de verdade e lhe deu o beijo mais saboroso do mundo.

Ele olhou para ela e ela enrubesceu como se tivesse catorze anos de novo. Ele nunca a esquecera, mas o amor magoara-o demais. Fora o seu primeiro beijo e a sua primeira desilusão.

-Sempre pensei que fugiras de mim por causa daquele beijo.

-Oh não, nunca..os meus pais não me deixaram falar com mais ninguém, desculpa eu não te quis magoar...

 

-Agora percebi.Foi bom ver-te. Tenho de ir para a missa.

-Vais à missa?

-Não. Vou celebrá-la. Sou o novo pároco desta paróquia.

Ele vislumbrou uma nuvem de decepção nos olhos dela e como que em jeito de se desculpar disse-lhe:

-Eu nunca te esqueci, pensei que te perdera para sempre. Querem vir assistir?

-Com certeza.- Disse ela.

-Não te volto a perder. Posso ter-te perdido como homem, mas hoje vejo que nunca te perdi como irmão de amizade e isso vale mais que mil paixões.- E seguiram de mão dada até à igreja.

 

A multidão cochichou entre si. E muitos rumores soaram nos anos que se seguiram. Mas nunca as vozes do povo tiveram razão em falar.

 

 Passados 30 anos. Encontravam-se ambos debaixo do telheiro. Ela de pé. Ele sentado no muro.

 

-Beijas-me? – Disse ela.

Ele não respondeu, deu-lhe ao de leve um beijo na testa.

-Não, beija-me mesmo, só por esta vez.

-Sou um padre. Sabes que não posso.

-Só por esta vez.

Ele não resistiu e beijou-a. Ela nunca perdera o sabor a azul do céu.

-Porque me pediste para te beijar?

-Porque queria levar o teu sabor a amoras frescas acabadas de colher comigo. Prometes-me tomar conta do Sebastião?

-Sim, embora ele já seja um homem feito, mas porque me pedes isso?

-Porque tenho de partir. - E dizendo isto desfaleceu nos seus braços adormecendo para sempre.

 

 

 Nunca um serviço fúnebre lhe fora tão doloroso, mais a mais, por sentir que aquelas almas presentes o condenavam.

Como se pode condenar um amor tão puro? Nunca ninguém acreditaria que em 52 anos de existência a amara sempre e só tinham trocado dois beijos, mas a coincidência do filho ter o seu nome também não ajudava.

 Só quem amou verdadeiramente acreditaria num amor tão puro. Não se importava com o mundo.

Olhava o céu, queria encontrá-la. Ainda tinha o seu sabor a azul do ceú, na boca.

 

O céu ganhara um novo significado na sua vida.

 

conto de ficção escrito por mim

ilustração retirada da internet.

 

 




12 comentários:
De http://vagabonder-vagabond.blogspot.com a 9 de Setembro de 2008 às 18:08
Gostei muito do conto. Mesmo muito. Parabéns. Uma agradável lufada de ar fresco entre correntes de ar que deixam mais das vezes muito a desejar.

Não posso dizer que invejo um amor como esse. A sua história faz-me sentir dor na alma - será que amar implica sempre sofrimento e mágoa? Por vezes penso que sim. Mas nesse caso prefiro nunca vir a amar. Escolho para mim um amor que não traga consigo angústia...


De Alfa a 12 de Setembro de 2008 às 14:29
Este foi um amor desencontrado,mas de certa feliz,pois acho que no fundo eles nunca acabaram por nunca se decepcionar um ao outro.Um amor puro sem pedir nada em troca.


De Anjos a 9 de Setembro de 2008 às 18:17
É só para dizer que estou aqui a chorar feita parva!! Lindo!!!


De Alfa a 12 de Setembro de 2008 às 14:31
Obrigada,nem sei que dizer, nunca pensei despertar tais emoções. De vez em quando dá-me para isto.Tenho sempre histórias a querer sair.Obrigada por leres este cantinho e deixares a tua opinião fico contente.


De Autores a 10 de Setembro de 2008 às 12:22
Criei um blog para quem gosta de escrever histórias.
Queres aceitar o desafio ?
Espreita: fabricadehistorias.blogs.sapo.pt
Vamos ter desafios novos todas as semanas...


De Alfa a 14 de Setembro de 2008 às 02:01
Huuum gosto de desafios...obrigada pela visita


De meldevespas a 10 de Setembro de 2008 às 15:54
Que doçura.....
O amor experimentado pela primeira vez, ainda por cima a saber a sol ;D
E a eternidade do amor, na pessoa deste teu padre, de uma maneira tão própria e intimista.
Muito lindo mesmo
Beijinhos


De Alfa a 12 de Setembro de 2008 às 14:33
Fiquei babada, um elogio vindo de quem tão bem joga com as palavras,deixa-me assim.Ainda bem que gostaste. beijinhos


De Ohayo a 13 de Setembro de 2008 às 21:35
Questões de amor... senti este texto à bem pouco tempo, mas num sentido diferente... e soube-me muito bem ler este teu texto. Obrigada. Bacinos


De Alfa a 14 de Setembro de 2008 às 02:02
Não tens de que ainda bem que gostaste .Eu é que agradeço a visita.


De estrelaquebrilha a 15 de Setembro de 2008 às 14:31
Adorei este texto lindo, lindo.
bj


De Alfa a 16 de Setembro de 2008 às 03:29
Obrigada,por brilhares por estas paragens.Ainda bem que gostaste. beijinhos


Comentar post

Quem é a cozinheira?
Procure no Caldeirão
 
Dezembro 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
22
23
24
25
26

27
29
30
31


A sair do Caldeirão

Partiste

Palácio de Estrelas.

Uma Amiga especial

Top 5 de Verão!

Provérbio chinês

Para o ano 2012

Reflexão

desabafo um pouco mal edu...

Uma vida banal

Tesouros Valiosos

Entre a atracção e a razã...

In memoriam a um grande a...

Vai um café com leite par...

Sonhos

O 25 de Abril explicado à...

A arte de Dali que afinal...

Um estranho dia…

A Girafa Constipada

Um novo capítulo

O espelho da vida

As linhas que nunca foram...

Uma carta do passado.

Uma nova estrela no firma...

Fragmentos I - TARDES DE ...

Apenas em doze meses…

Feliz ano novo

Feliz Natal

Infielmente Fiel

Um Domingo diferente.

Chapéu Violeta

Sopas Servidas

Dezembro 2015

Agosto 2013

Julho 2013

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Outubro 2011

Agosto 2010

Julho 2010

Abril 2010

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

tags

25 de abril

abandono

amor

anedota

aniversário

aniversário da bárbara

ano novo

aulas

aviso importante

avó

beijos

bem

bens materiais

borracha

carta

celebração

citaçõesguerra dos sexos

colecções

conto

conto ficção fábrica de histórias

conto infantil

conversa

coração dividido

crianças

cruz vermelha

dali pps arte ignorância

desafio

desejos

desemprego

desilusão

dia da mãe

dias normais

domingo

escrever

espelho

esquecer

euro 2004

euro 2008

fábrica de de histórias

fábrica de histórias

faca de dois gumes

falar

faxina

feliz natal

ficção

ficcção

força

futebl

guerra

história

história para crianças

história.

homenagem

homenagem acidentes de viação

humor

inocência

inspira-me

jogo

láis

lendas

liberdade

lmbra

mal

mar

memória

moldura

mulher

olhão

paixão

palavra

parabéns

pescadores

poder

poema

poesia

professora

quadra

refelexões

reflexão

rocha

sátira

saudades

sedução

segredos

sexo

tampax

tempo

traição

vela

velhice

velhice rétrarto

vida

violência

violência doméstica

todas as tags

As sopas mais saborosas

Sabor a azul do Céu...

Para que serve uma relaçã...

Um novo capítulo

Dias normais?

Dia de Faxina

Estarás sempre no meu cor...

Beijo melhor do que cozin...

O Erro do poeta

Coisas de Anjo

A Força da Chama

Meto a colher em
O Meu blog de Mamã
Crónicas de uma Mãe Atrapalhada
É Urgente olhar
logo da campanha Por Darfur
O Rádio da Sopa De Letras




a comer sopa
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds