Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Terça-feira, 5 de Agosto de 2008
UM VIOLINO CHORA (homenagem a umas das muitas vítimas do IP4 no Verão)

 

 No dia 29 de Julho de 2003, um acidente de viação ocorrido junto a Pedronelo, Amarante, vitimou mortalmente a vocalista da banda “Odores de Maria”, Maria Zulmira, uma jovem de 22 que ocupava também a função de violinista neste projecto musical. Ela foi a terceira vítima fatal desse verão no IP4. Já faz 5 anos que isto aconteceu e parece que nas nossas estradas nada mudou. Este texto foi escrito para ela e por ela. A ela o dediquei e dedico. Tive o prazer de a conhecer pessoalmente e sei que perdemos uma pessoa de grande valor, de grande talento, uma jovem e bela mulher com um futuro promissor à sua frente. Aqui fica a minha singela homenagem.

 

UM VIOLINO CHORA

Lá fora o sol brilha e o céu está limpo, mais azul do que nunca. Poder-se-ia dizer que está um dia lindo sem nuvens, mas uma nuvem carregada de tristeza percorre a vida de algumas pessoas, inundando-as de saudade de alguém cuja vida foi interrompida.

Não importa que o sol brilhe e o céu esteja azul, porque ela partiu sem se despedir, na certeza de que voltaria. Mas não voltou...

Era daquelas pessoas que, como se costuma dizer, tinha tudo. Era jovem, bonita e talentosa. Todos os que conheciam tinham a certeza que um dia ela seria alguém e o seu talento iria alegrar o mundo. Torcíamos para que um dia, o som do seu violino chegasse mais longe e a sua voz nos contasse histórias em melodias de encantar que nos ficavam alegremente nos ouvidos.

Lutava como todos os jovens lutam pelos seus sonhos. Mas ela era diferente, tinha aquela garra e aquela alegria de viver que por vezes marcam a diferença. A música era a sua vida e o violino a sua a paixão.

Lembro-me de a ver entrar num palco simples, bonita e encantar todos com a sua voz e o som do seu violino, e enquanto o violino soava, a música parecia inundar-se de magia.

Sempre tive aquela sensação estranha de que os violinos choram. Hoje tenho a certeza.

Despertei com o telefone a tocar. Do outro lado da linha informaram-me que ela tinha feito a sua última viagem. O asfalto impiedosamente roubara-lhe a vida, a juventude, a beleza, o talento e os sonhos. 

Não quis acreditar. Não era justo para ela. Mas infelizmente era verdade, e nem sempre as regras do jogo da vida são justas para connosco.

O seu violino não se silenciou, tenho agora a certeza que o seu violino chora de saudade.

Não sei para onde ela partiu, mas faço votos de que se encontre num céu tão azul como aquele, onde o sol brilha agora. 

Sei apenas que hoje o sol brilha, o céu está azul e algures, para além do possamos imaginar, um violino chora...

Flora Rodrigues

Dedicado à memória de Zulmira Achermann falecida a 29 de Julho de 2003



Sopa servida Alfa às 03:50
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5 comentários:
De Lua de Sol a 5 de Agosto de 2008 às 04:12
Pois é... A vida e a morte e o simples significado da nossa passagem por Cá são verdadeiros mistérios... E pode parecer coincidência mas parece que quem parte é sempre quem faz falta... Gosto de imaginar que Deus escolhe quem leva pela bondade... pela boa alma... Mas é sempre uma tristeza quando colhe flores tão jovens...
E é terrível saber que alguém parte com saúde... mas acredito no destino, na hora marcada... Tudo deve fazer algum sentido ainda que não o entendamos...
E as estradas são, sem dúvida, o caminho mais fácil para levar quem não está doente... Uma enorme infelicidade.
Vem-me à lembrança o sentimento devastador que os pais (e restante família e amigos) não devem ter sentido e a saudade que permanece...
Adoro o som do violino, o instrumento enquanto imagem de objecto, acho muito muito romântico, doce mas triste... Provavelmente, os violinos choram mesmo...
Esta tua homenagem está muito bonita...

Beijinhos


De Alfa a 6 de Agosto de 2008 às 03:39
Ela já não tinha pai, isto é o pai há muito que não sabiam dele.Mas o choque para a família foi imenso. è uma maneira bonita de aliviar ador aquilo que imaginas ,mas porqu~e alguém tão jovem. Senti-me muito revoltada na altura..Se a tivesses conhecido ias gostar muito dela. beijinhos obrigada pelas tuas palavras.


De daplanicie a 18 de Agosto de 2008 às 11:36
É sempre terrível quando alguém desaparece inesperadamente das nossas vidas em circunstâncias trágicas. Mais ainda quando estão no início das suas vidas, prontas para darem tudo de si aos outros. Paz à sua alma e que esteja neste momento num lugar melhor.
Um beijinho para ti e parabéns pela bela homenagem.


De Alfa a 9 de Setembro de 2008 às 15:22
De facto assim é.O que é pena è que aos poucos situações trágicas como estas caem no esquecimento para só serem lembradas por outra tragédia.


De Jael Palhas a 3 de Junho de 2010 às 12:19
O meu violino também chora agora.... só hoje descobri esta triste notícia...
Fui aluno de violino da Zulmira na Figueira da Foz, em 2003... nunca mais a voltei a ver... imaginava que ela continuaria a sua carreira a tocar musica celta como tanto gostava...

Eu estudava violino no Conservatório da Figueira da Foz.... dividia o tempo entre os estudos, o teatro, a música, o artesanato... o violino exigia muito de mim e eu nem sempre me dedicava o suficiente. Comecei a perder técnica e a desanimar. A professora que eu tinha então, faleceu de cancro e estive uns tempos sem aulas... foi então que conheci a Zulmira... um dia cheguei ao conservatório, bati à porta da sala...e pensei que me tinha enganado na sala ou que estava a sonhar... veio abrir a porta uma jovem linda e sorridente, com um longo vestido de veludo verde, com um violino na mão... era a Zulmira, a nova professora de violino.

Os meus problemas na altura eram a falta de dedicação e de motivação, mas ela, no pouco tempo que me deu aulas, ajudou-me a reencontrar a motivação para tocar violino, trouxe música celta para eu ouvir, ajudou-me a procurar músicas que eu gostasse mais para tocar, ajudou-me a olhar para as pautas de outra forma, interpretando a intenção por trás das frases, vendo a música como comunicação e não como simples leitura musical, ajudou-me a procurar o melhor som do meu violino, cada aula era uma descoberta... no final de cada explicação perguntava ela sorridente “capiche?” e eu respondia “capisco!”, pegava no violino e tentava fazer melhor!... as aulas deixaram de ser um teste à minha capacidade de estudo, mas sim uma partilha de conhecimento e de entusiasmo que me ajudou a recuperar a motivação e alguma técnica. Infelizmente o ano lectivo terminou… em Julho. Não a voltei a ver, mas imaginava que continuasse em Bragança, a tocar a cantar…a encantar!

Hoje, passados 7 anos, a minha mulher perguntou-me “Capiche?”…e, estando à frente do computador, lembrei-me de pesquisar onde andaria a Zulmira, o que andaria a tocar?
A resposta não podia ser mais triste!

Alguém me disse há pouco tempo no funeral de um amigo “ se tu fores a um jardim e tiveres flores bonitas e perfeitas e flores imperfeitas, qual escolherias para levar para casa? A mais bonita, não é? Deus faz o mesmo… colhe as flores mais perfeitas do seu jardim….”

O meu agradecimento e a minha homenagem a quem me fez reencontrar a motivação e a alegria de tocar música. Hoje toco bandolim (a afinação é igual à do violino) e quem me conhece sabe que ando sempre a tocar e que levo o instrumento para todo o lado.


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