Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008
A Passageira I Parte



Já desde há muitos anos que aquela rotina se mantinha. Todas as noites, sempre que o seu dia de trabalho chegava ao fim, o som das rodas dos comboios nos trilhos de ferro, ecoava na sua cabeça.
Nascera, crescera e sempre vivera no meio dos comboios. Habitava uma pequena vila que devia o seu nascimento e o seu desenvolvimento a esses “monstros sagrados de ferro” que eram para si os comboios. Sexto filho, de uma família humilde, seguira, à falta de melhores oportunidades as pegadas de seu pai e tornara-se revisor. Quase todos os dias lhe competia o mesmo percurso naquela localidade. Desde há muitos anos, que fazia serviço quase sempre nos mesmos comboios. Alguns passageiros habituais tinham-se tornado seus conhecidos de longa data.
Por vezes parava para pensar na sua vida e a única palavra que lhe vinha à mente era “rostos”. Sim “rostos”. Dia após dia, ano após ano, a sua vida era marcado por rostos. Rostos tristes, rostos alegres, rostos sisudos, rostos bondosos; rostos mortiços; rostos brilhantes; rostos pálidos; rostos radiantes, rostos rugados, curtidos pelo sol, rostos sulcados, marcados pela vida, rostos bonitos; rostos feios; rostos de mulher; rostos de homem; rostos de criança; rostos, rostos, rostos….
Contudo estes rostos tão diferentes já eram para ele vulgares. Havia porém, o rosto misterioso daquela mulher que começara a frequentar o comboio da meia-noite desde há pouco mais de um mês. Estava habituado a lidar com rostos de pessoas de todas as raças e classes, por vezes, se tinha tempo para isso, observando os passageiros conseguia adivinhar o que lhes ia na alma. Mas aquela mulher misteriosa fora para ele insondável, fria como o gelo. Um arrepio percorria-lhe o corpo quando a encarava, e embora nada lhe conseguisse ler no rosto, tinha a sensação absurda de a conhecer de algum lado.
Pensava todavia, insistentemente de onde poderia conhecer aquele rosto, e chegava sempre à conclusão de que não passava de uma cisma sua. Era natural que ao fim de vinte anos lidando com rostos, lhe surgisse esta cisma ao se deparar com um rosto que não sentia tão familiar como os outros, e convencendo-se a si mesmo de tal ideia, decidi desviar o seu pensamento da ideia fixa, de que embora aquela mulher não pertencesse ao grupo de rostos que para ele, já eram familiares, a conhecia de algum lado.
Passaram-se alguns meses em que conseguira o seu intento. Continuava a sua rotina normal, sem concentrar o seu pensamento naquela personagem misteriosa. Concentrava-se no ambiente que existia entre os passageiros. Observava-os como se assistisse a um filme. Enquanto uns dormitavam cansados, outros liam recostados, alguns merendavam, outros observavam distraidamente as paisagens, alguns estudantes aproveitavam para dar uma vista rápida nos livros, enquanto outros passageiros conversavam animadamente, alguns provavelmente sem se conhecerem antes da vida lhes ter proporcionado aquele encontro fortuito numa carruagem de comboio. Havia ainda aqueles que seguiam viagem abstraindo-se de tudo, ouvindo música, ou fumando um cigarro, para matar o tempo, ou ironicamente a solidão, no meio de tanta gente. Este espectáculo a que assistia todos os dias no palco da sua vida, o comboio, levava-o apensar como era engraçado, que o mesmo motivo levasse todas aquelas pessoas tão diferentes a se reunirem no mesmo lugar, à mesma hora: o facto d terem todos o mesmo objectivo, chegar ao seu destino.
Comparava muitas vezes a vidas às viagens de comboio, pois tal como nessas viagens, pela sua vida a fora tivera amigos que passaram pela sua vida e mais tarde lhes perdera o rumo, como se estes tivessem chegado ao seu destino, saído da sua vida sem nunca mais saber deles. Como passageiros de um comboio, que chegado à paragem destinada saíssem para nunca mais regressar àquela carruagem. Enquanto outros amigos e pessoas que estimava, permaneciam fielmente ao seu lado, como os passageiros fiéis das viagens rotineiras de trabalho. Tal como os comboios efectuavam inúmeras paragens durante o seu percurso, por vezes na vida, também era necessário passar por várias fases e recomeçar tal como o comboio recomeçava a sua viagem. Distraía-se por vezes embrenhado nesta associação de ideias, comboio, vida, uma viagem, pessoas que entram, pessoas que saem, paragens, recomeços, destinos iguais, diferentes, entrecruzando-se no mesmo caminho. Porém estes mesmos pensamentos despertaram-lhe de novo a curiosidade sobre a passageira misteriosa. Quem seria? De onde viria? Para onde iria? Porque lhe despertava tanta curiosidade. Instintivamente procurou-a com o olhar, foi quando se apercebeu que naquele dia, ela não viajara. A curiosidade persistiu. Estaria doente? Ou a sua passagem por aqueles lados teria terminado? Esperou sabiamente que o tempo lhe desse a resposta. No dia seguinte procurou-a de novo com o olhar, infrutiferamente. Assim se passaram três dias. Já começava a chegar à conclusão que ela chegara ao seu destino e que a sua passagem por aquelas bandas terminara, quando abordou uma passageira vestida de negro, que olhava desinteressadamente a paisagem. Parou, para lhe pedir o bilhete, quando ela se virou um arrepio percorreu-lhe o corpo. Era ela, regressara. Pegou no bilhete e não resistiu a um rápido pestanejar, quando em vez do bilhete do comboio ela lhe entregara um bilhete que dizia: “ Lucas não venhas trabalhar na Quinta-Feira”.
- Desculpe - disse ele – acho, que se enganou – e com um ar grave ,retorcendo o bigode, devolveu-lho esperando que ela lhe entregasse o bilhete do comboio. Ela levantou os olhos, sorriu e disse:
- Desculpe, mas o senhor deve estar cansado. Ora veja se não é este o bilhete - e voltou a entregar o mesmo bilhete.
Já com um pouco de mau humor, aceitou o bilhete e ao olhar para o bilhete, este era um bilhete normal de comboio e ela não o podia ter trocado, porque ele estivera sempre ali.
- Peço desculpa, deve ter razão, deve ser cansaço e afastou-se após ter verificado o bilhete.
O incidente não lhe saía da cabeça. Tinha razão, ele tinha razão, havia algo de estranho com aquela mulher. Como é que ele tinha visto, um bilhete com o seu nome escrito. Seria cansaço como ela disse? Não! Ele ia jurar que tinha lido muito bem aquele bilhete. (continua)

Texto de ficção de minha autoria
ilustração retirada da Internet



Sopa servida Alfa às 16:30
Receita da sopa | Meta a colher | Esta sopa é deliciosa
|

6 comentários:
De Ohayo a 19 de Fevereiro de 2008 às 16:26
Humm... vou já ler a segunda parte. Beijocas


De Alfa a 21 de Fevereiro de 2008 às 11:51
Espero que continues a gostar. jinhos


De estrelaquebrilha a 19 de Fevereiro de 2008 às 16:27
Está lindo este texto, adoro a forma como escreves:)
bj


De Alfa a 21 de Fevereiro de 2008 às 11:49
obrigada.fico contente.Espero que goste do final


De Lua de Sol a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:49
Gosto de transportes... de passageiros e passageiras... Podemos imaginar-lhes uma vida! Interessante o tema.

Beijocas


De Alfa a 28 de Fevereiro de 2008 às 11:08
E ás vezes ouvem-se histórias fantásticas...beijinhos


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