Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Domingo, 20 de Janeiro de 2008
Olhar de Perdição



Enquanto a água quente escorria do chuveiro acariciando o seu corpo, ele fechava os olhos, concentrado na carícia da água. Precisava relaxar, já não sabia muito bem a quantas andava. Desde que conhecera Carolina que mudara completamente de vida. Deixara de ser um mulherengo inconsequente para se dedicar inteiramente ao seu amor por Carolina.

 

   Fora engraçada a forma como se conheceram, porque parecia que só nos filmes e romances é que as pessoas se conheciam dessa forma. Tinha sido um daqueles dias em que nada parecia dar certo e damos connosco a perguntar, porque carga de água tirámos os pés da cama. Ele ia a sair do escritório, apressado, exausto com uma pasta mal fechada, cheia de papéis por pôr em ordem e ela igualmente carregada de papéis cruzara-se no seu caminho provocando um inevitável choque frontal. Chovia. Os olhares cruzaram-se ficando perdidos no meio papéis espalhados, misturados e molhados. As suas mãos tocavam-se inevitavelmente no desespero sôfrego de salvarem os papéis da fatalidade da chuva.

Olhares cruzados, papéis misturados, corpos encharcados; rebentaram simultaneamente numa sonora gargalhada. Apresentaram-se e combinaram ir tomar um café, para poderem arrumar a respectiva papelada que se encontrava misturada. O café era aconchegante. A chuva caía cada vez mais violenta. A conversa fluía naturalmente como se fossem velhos amigos que se conheciam profundamente.

      A água quente a cair do chuveiro, talvez pelo som trazia-lhe cada vez mais à memória esse momento. As imagens desse encontro acorriam-lhe à memória com se de um filme se tratasse.

 

     Conversaram horas sem fim até o café fechar, esqueceram-se inclusivamente de jantar.

Já era tarde. Ofereceu-se para levar Carolina a casa e esta aceitou. Desde esse dia nunca mais se separaram.

       Ela era tudo o que ele sempre desejara numa mulher. Bem, tudo, tudo, não!

 Ele tinha fixação por olhos verdes e os de Carolina não podiam ser mais castanhos, quase negros, redondos, enormes, lindos! Mas castanhos! Porém o seu sorriso, a sua inteligência, a sua jovialidade e principalmente a forma pragmática e simplista como ela encarava a vida, conquistaram-no irremediavelmente.

     Ele tinha-lhe confessado inadvertidamente o seu fascínio por olhos verdes, o que por vezes a entristecia, quando se apercebia que o seu olhar se desviava para admirar mulheres com olhos verdes. Ele percebia, beijava-a, dizia que ela não tinha motivos para ter ciúmes ou ficar insegura, e cantava-lhe em tom de perdão os versos do fado canção:

 “...Olhos verdes são traição,

São cruéis como punhais

Olhos bons com coração

Só os teus castanhos leais!”

 

Trauteava agora levemente os versos da canção, enquanto fechava a torneira do chuveiro.

Saíu do banho e vestiu o roupão. Ao chegar ao quarto era sempre recebido pelo sorriso de Carolina pendurado no póster que colocara no seu quarto.

    Nunca nenhuma mulher o tinha feito tão feliz como ela, aliás ela ensinou-lhe o significado dessa palavra que ele desconhecia.

 Se tudo corria bem, porque é que ele se sentia a voltar aos seus velhos tempos de mulherengo inconsequente cada vez que Mariana sua nova secretária lhe dirigia a palavra.

      Não, ele não conseguia resistir àquelas esmeraldas cintilantes que eram os olhos de Mariana.

Não conseguia dominar o desejo. Tinha a certeza que Mariana percebera o seu desejo.

 De dia para dia insinuava-se cada vez mais, apresentava-se de forma cada vez mais exuberante e sensual, arranjando mil e uma formas de fazer luzir o verde dos seus olhos.

   O inevitável acontecera. O serão prolongara-se e nem a imagem do sorriso de Carolina a acorrer-lhe à memória, o salvaram da tentação.

    O seu coração dividia-se entre o amor por Carolina e a paixão por Mariana. Como o ser humano é frágil e cobarde, desculpar-se com o coração. Não, não era o coração, era ele, homem que desejava Mariana com todo o seu corpo. Curiosamente, sempre que estava com ela, os versos da canção vinham-lhe à memória “ é apenas uma canção” e desviava o pensamento.

Não conseguiu mentir a Carolina. Contou-lhe tudo. Pediu-lhe perdão, mas precisava de um tempo para pôr as ideias em ordem. Carolina aceitou, mas avisou que não esperaria eternamente.

 

Ouviu a campainha soar. Foi abrir a porta. Era Carolina. Olhou-a surpreendida os seus olhos brilhavam com um verde estonteante. Se o problema, são os olhos, eu resolvo-o como vês! Disse--lhe ela ao entrar. Mas não já não eram só os olhos. Ele queria as duas. Já não conseguia viver sem nenhuma delas. As duas nem pensar! Carolina teve um raro acesso de raiva, tirou as lentes contacto e espezinhou-as. Depois entrou no quarto tirou o seu póster da parede e atirou-o violentamente ao chão. Desatou num choro desesperado, abaixando-se sobre si própria. Ele abraçou- a . Ela encostou-se a ele beijou-o e despediu-se, não queria sofrer mais. Ele que fosse feliz. E foi-se embora.

   Ele sentou-se no sofá esgotado e deixou-se dormir.

Acordou com o sol a bater-lhe na cara.

          Acendeu o rádio: a locutora anunciava que uma mulher de nome Carolina Ramos fora vítima mortal de um atropelamento. O condutor ainda tentara travar, mas ela surgira do nada, fitando apenas o chão. Alheia a tudo à sua volta. Aflito pegou no telefone e ligou para o hospital que tinham divulgado na rádio. Os seus piores receios foram confirmados. Era a sua Carolina.

Dirigiu-se para o escritório, pesaroso. Não sabia como ia encarar Mariana. Não ia conseguir chorar a perda de Carolina nos ombros de Mariana. Não era justo para nenhuma das duas. Decidiu ir chorar no ombro do seu sócio. Dirigiu-se ao gabinete deste, macambúzio e pesaroso, sem querer abriu a porta sem bater. Não quis acreditar no que os seus olhos viam: Mariana fazia amor com o seu sócio dizendo-lhe as mesmas palavras que lhe repetira sem fim enquanto faziam amor: juras de paixão e amor eterno. Retirou-se sem se aperceber se o tinham visto ou não.

 

  Dirigiu-se a uma florista e pediu-lhe que lhe fizesse um ramo com flores brancas apenas.

Na dedicatória pediu que escrevesse os versos da canção.

   Todos os dias ele visita a campa de Carolina e canta-lhe os versos da canção, num tom sentido como se lhe pedisse perdão....


 

texto de ficção de minha autoria





Sopa servida Alfa às 09:37
Receita da sopa | Meta a colher | Esta sopa é deliciosa
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6 comentários:
De estrelaquebrilha a 24 de Janeiro de 2008 às 16:43
Adorei o que escreveste, eu também escrevo uns textos, qualquer dia meto no blog:)
adorei mesmo.
bj


De Alfa a 26 de Janeiro de 2008 às 20:11
Volta sempre, já sabes que és bem-vinda Estrela. quantos aos textos coragem, que a gaveta não nos dá feed-back. beijinhos


De dreedlino a 27 de Janeiro de 2008 às 22:43
Sem palavras...pois vejo que temos aqui uma senhora escritora parabéns do fundo do coração.
Uma boa semana e um beijinho do Rui


De Alfa a 5 de Fevereiro de 2008 às 21:10
Obrigada embora eu possa confessar que não é dos meus textos preferidos. obrigada pela visita e volta sempre quea qui há sopa para todos.


De Lua de Sol a 28 de Janeiro de 2008 às 13:02
Já tinha lido mas esquecido de comentar...
Uma história de amor envolta em versos de sabor agri-doce...


De Alfa a 5 de Fevereiro de 2008 às 11:02
cada vez que leio isto acho que parece uma novela mexicana (lo) , não está mau,mas decididamente não é o género em que me safo melhor.obrigada pelas tuas palavras. beijinhos


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