Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008
Obsessão



Ela odiava perder. Ficava de mau humor, impossível de se aturar quando perdia fosse o que fosse. Deixara de jogar, pois assim se não ganhava, também não perdia.

Catalogava religiosamente todas as suas coisa e onde ficavam, pois não podia perder tempo a procurá-las. Não usava as jóias que tinha, pois corria o risco de as perder. Evitava os comboios, os autocarros e os aviões pois se não chegasse horas poderia perdê-los. Quando tinha que utilizar estes transportes chegava sempre com horas de antecedência. Como não gostava de perder nada, e muito menos tempo, ela levava a agenda pessoal para anotar tudo o que precisava de fazer para nada perder. Tinha sempre muita calma, pois se não a tivesse corria o risco de perder a paciência. Muitas pessoas se indagavam, se ela não gostaria um dia de ter o prazer de ganhar um jogo, fosse ele qual fosse Dama, Xadrez, Gamão, ou até a Raspadinha que sorteavam na televisão?

Quando a confrontavam, directamente com a questão, ela apenas respondia:

- Vocês não estão a perceber, o que interessa não é ganhar, mas sim não perder.

Praticava ginástica e fazia dieta porque não queria perder a forma. Ia com frequência ao médico, a consultas de rotina porque não queria perder a saúde. Comprava todos os cremes de dia e de noite, para ter a certeza que não perdia a sua beleza. No trabalho falava apenas o essencial, para não perder o seu o ar profissional. Não se apaixonava. No amor não arriscava, pois este era um jogo, assim, não perdia nem ganhava.

Era esta a sua forma de viver. Arte no seu dizer.

Foi assim que viveu alguns anos, até que um dia, de surpresa, recebeu a notícia que a sua mãe falecera.

Ela perdera !

Ela perdera a pessoa mais importante da sua vida e nada pudera fazer. Nesse dia percebeu o verdadeiro significado da palavra PERDER.

Só assim ela percebeu, que quando temos que perder, perdemos mesmo. Ela tudo fizera para não perder.

Percebeu então que já tinha perdido, sem se aperceber: tinha perdido tempo a tentar não perder!

Mas há coisas na vida que nada podemos fazer. Talvez por vezes seja bom perder. Perder tempo! Perder tempo a amar, a abraçar, a sorrir, a escrever; a perder jóias para depois as procurar, a conversar, a arrumar, a ajudar os outros, a correr atrás do autocarro, do comboio, do avião, do Coração. Perder tempo mesmo que de fugida a correr atrás dos sonhos, atrás da aventura que é a vida!

texto de ficção de minha autoria

ilustração fotos do sapo

 


Sopa servida Alfa às 16:54
Receita da sopa | Meta a colher | Esta sopa é deliciosa
|

8 comentários:
De Lua de Sol a 17 de Janeiro de 2008 às 13:24
Fantástica lição!
Há quem tenha tanto medo de perder a vida que não a viva!
E há mesmo pessoas assim...

Beijocas


De Alfa a 23 de Janeiro de 2008 às 00:39
Acho que por vezes somos todos um pouco assim,mas felizmente para a maioria de nós , são apenas fases, mas existem pessoas que nunca correram riscos e nunca viveram, com medo e sofrer e viveram em sofrimento sem sequer disso se aperceberem.Foi o meu texto de estreia nos Anjos e Prata foi escrito para o tema "Perda."

beijinhos


De Neli a 17 de Janeiro de 2008 às 13:55
Olá! Fiquei impressionada com o que escreveste. Adorei a tua sensibilidade...
Vou voltar a visitar-te


De Alfa a 23 de Janeiro de 2008 às 00:40
Bem -vinda e volta sempre, espero que continues a gostar.

beijinhos


De amulherdetrintaanos a 17 de Janeiro de 2008 às 23:42
Ora aí está uma grande constatação. Medo para quê? (se bem que às vezes todos nós lá caímos). A vida tem uma inevitabilidade tão própria que não vale mesmo a pena nos resguardarmos de mais, nem de menos. Deixar passar a vida como que adormecidos pelo medo é, realmente, não estarmos a viver as coisas no seu momento e, por isso, a desperdiçá-las. Mensagem bem positiva! Bjs


De Alfa a 26 de Janeiro de 2008 às 20:07
Sim , há pessoas que não vivem pelo simples medo de sofrer,e não arriscam nunca mais. è triste.... bejiinhos


De Anjos a 18 de Janeiro de 2008 às 10:36
Descobri agora a tua outra identidade e adorei. Divinal...


De Alfa a 23 de Janeiro de 2008 às 00:42
Bem-vinda.Ainda bem que gostaste, volta sempre. é bom ter anjos por perto...
beijinhos


Comentar post

Quem é a cozinheira?
Procure no Caldeirão
 
Dezembro 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
22
23
24
25
26

27
29
30
31


A sair do Caldeirão

Partiste

Palácio de Estrelas.

Uma Amiga especial

Top 5 de Verão!

Provérbio chinês

Para o ano 2012

Reflexão

desabafo um pouco mal edu...

Uma vida banal

Tesouros Valiosos

Entre a atracção e a razã...

In memoriam a um grande a...

Vai um café com leite par...

Sonhos

O 25 de Abril explicado à...

A arte de Dali que afinal...

Um estranho dia…

A Girafa Constipada

Um novo capítulo

O espelho da vida

As linhas que nunca foram...

Uma carta do passado.

Uma nova estrela no firma...

Fragmentos I - TARDES DE ...

Apenas em doze meses…

Feliz ano novo

Feliz Natal

Infielmente Fiel

Um Domingo diferente.

Chapéu Violeta

Sopas Servidas

Dezembro 2015

Agosto 2013

Julho 2013

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Outubro 2011

Agosto 2010

Julho 2010

Abril 2010

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

tags

25 de abril

abandono

amor

anedota

aniversário

aniversário da bárbara

ano novo

aulas

aviso importante

avó

beijos

bem

bens materiais

borracha

carta

celebração

citaçõesguerra dos sexos

colecções

conto

conto ficção fábrica de histórias

conto infantil

conversa

coração dividido

crianças

cruz vermelha

dali pps arte ignorância

desafio

desejos

desemprego

desilusão

dia da mãe

dias normais

domingo

escrever

espelho

esquecer

euro 2004

euro 2008

fábrica de de histórias

fábrica de histórias

faca de dois gumes

falar

faxina

feliz natal

ficção

ficcção

força

futebl

guerra

história

história para crianças

história.

homenagem

homenagem acidentes de viação

humor

inocência

inspira-me

jogo

láis

lendas

liberdade

lmbra

mal

mar

memória

moldura

mulher

olhão

paixão

palavra

parabéns

pescadores

poder

poema

poesia

professora

quadra

refelexões

reflexão

rocha

sátira

saudades

sedução

segredos

sexo

tampax

tempo

traição

vela

velhice

velhice rétrarto

vida

violência

violência doméstica

todas as tags

As sopas mais saborosas

Sabor a azul do Céu...

Para que serve uma relaçã...

Um novo capítulo

Dias normais?

Dia de Faxina

Estarás sempre no meu cor...

Beijo melhor do que cozin...

O Erro do poeta

Coisas de Anjo

A Força da Chama

Meto a colher em
O Meu blog de Mamã
Crónicas de uma Mãe Atrapalhada
É Urgente olhar
logo da campanha Por Darfur
O Rádio da Sopa De Letras




a comer sopa
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds