Letras atiradas ao acaso saídas de uma Caixinha de Pandora
Sábado, 24 de Novembro de 2007
A Chamada



Do outro lado da sala o telefone tocou. Ela correu a atender. Levantou o auscultador. Esboçou um inseguro “Estou...”. Mas do outro lado da linha, apenas uma leve respiração e a seguir o som do desligar. Era a terceira vez que esta cena se repetia. Pensou deixar o telefone fora do auscultador durante algum tempo, mas aguardava chamada do marido, que tinha viajado. Claro! Como estava a ser tonta. Provavelmente era ele que estava com dificuldades em estabelecer ligação. Ligou a Rádio. Estava frio. Ligou o aquecedor.

 O telefone voltou a tocar. Mais calma voltou atender. Do outro lado da linha uma voz se fez ouvir.

-         Estou? És tu Luísa,?

-         Sim. Mas...

-         Não me estás a conhecer? Lembras-te daquele com quem costumavas dançar ao luar? Acordar deitada na areia?

-         Ricardo!!! Mas já passaram dez anos como me descobriste?

-         Nunca te perdi o rasto Luísa. Nunca! Lembro-me de ti todos os dias. Ao acordar, ao deitar. Durante as refeições. Durante as noites de insónia. Quando danço sozinho ao luar.

-         Ri...

-         Não digas nada. Deixa-me falar. Esta será provavelmente a última vez que me vais ouvir. Esta será provavelmente a última vez que te irei ligar. Eu sou a tua sombra. Persigo-te noite e dia. Sei tudo sobre os teus passos. Mudaste de casa, mudaste de emprego. Casaste.

              Estás talvez um pouco mais velha e mais forte do que quando eras a minha musa inseparável. Mas estás ainda mais bela do que eras. E eu estou só, porque tu aprisionaste a minha alma no teu ser. Embriagaste o meu ser com o néctar licoroso dos teus beijos. E a tua voz doce e suave ainda me murmura aos ouvidos doces palavras de amor prometendo-me a felicidade eterna que me negaste.

 

   -   Vou d...

 

  -   Não desligues. Por favor não desligues. Podes dizer que sou louco. Talvez tenhas razão. Sou louco, louco por ti. Enlouqueci de paixão. Perdi de vez a razão. Mas não perdi o meu amor por ti. Por isso peço-te que me ouças. Esta é última vez que me ouvirás. Sei que já nem a minha voz tu reconheceste. Mas eu... eu nada de ti esqueci. Reconheço ainda o balançar do teu andar no meio de multidões. Quis desistir de ti. Esquecer-te. Mas a imagem de ti com outro homem é-me impossível de aceitar!

                   Tens uma casa recheada de conforto. Um marido, uma família. E eu ... não tenho nada.

Sei que ainda não desligaste, ouço o teu respirar! Ouviste, não aceito que me esqueças.

Estou mais perto de ti do que possas imaginar. Agora se quiseres podes falar.

 

-         Mas onde estás Ricardo?

-         Vejo que ninguém te encontrou. Ninguém te disse que eu morri? Que me matei quando casaste?

-         Deixa-te de brincadeiras de mau gosto. Os mortos não telefonam.

-         Tens a certeza? Então desliga o teu telefone da ficha.

-         Podes ter a certeza que o vou fazer! Já te aturei mais do que devia.

 Se bem o disse, melhor o fez. Mas assim que Luísa acabou de desligar o telefone da ficha. Este voltou a tocar. Exasperada tirou o auscultador do descanso. Mas o telefone continuava a tocar ininterruptamente.

 Foi invadida por um frio arrepiante quando ouviu uma voz a seu lado:

-         Vim buscar-te para uma dança ao luar...

Enquanto Luísa tentava em vão parar de rodopiar, uma sinistra gargalhada ecoava no ar.

 

 

(conto inspirado numa chamada anónima recebida por mim)

11/12/01

Flora Rodrigues


Imagem retirada da internet.



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14 comentários:
De dreedrui a 24 de Novembro de 2007 às 08:08
Não sei se o arrepio foi de frio se de ler este texto , não deixa de ser interessante mas macabro.
Um dia bom e felicidades no teu blog.
Abraço do Rui


De Alfa a 24 de Novembro de 2007 às 15:17
Sim arrepiante e macabro, felizmente a chamada que eu recebi era de alguém vivo,mas lago entre o romântico e o arrepiante.E como escrevi este conto para o tema ligações perigosas para os anjos de Prata, inspirei-me nela.Mas tenho outros mais positivos.Bem vindo e volte sempre.


De Ohayo a 24 de Novembro de 2007 às 12:41
Paixões e desencontros... quando não se desprende do passado deixa-se de viver o presente e apaga-se o futuro... mas o sentimento é poderoso ao ponto de conseguir voltar amar a vida, a si próprio e tudo à sua volta... ou a força suficiente para fazer um telefonema sem ficha... arrepiei-me...
Bom fim-de-semana!


De Alfa a 24 de Novembro de 2007 às 15:19
Hoje até a mim me arrepia.Por vezes dá-me prazer escrever este género. Catarse de fantasmas da alma talvez. Quanto ao resto da história percebes pelas outras respostas. Obrigada por não te esqueceres deste cantinho.

beijinhos


De meldevespas a 24 de Novembro de 2007 às 17:01
Antes de mais nada, obrigada pela visita que fizeste ao meu estaminé, e pelo comentário tão simpático :)

Em relação a este conto, para além de estar extremamente bem escrito, e prender da primeira à última palavra, é sem dúvida uma corrente de ar inesperada que nos apanha pelas costas....absolutamente arrepiante...
beijinho e bom fim de semana


De Alfa a 25 de Novembro de 2007 às 00:43
O tema chamaou-me a taenção e gostei da mensagem transmitida.Vou certamente voltar. quanto ao conto vejo que atingi o objectivo que era arrepiar as pessoas.Mas como j´´a disse tenho outros bem menos arrepiantes. Embora goste muito deste género.Seja bem vinda.Obrigada por retribuir avisita e espero que volte. beijinhos e resto de bom fim de semana.


De daplanicie a 25 de Novembro de 2007 às 15:50
Credo, conseguiste surpreender-me e deixar-me arrepiada. Logo eu que adoro uma boa história de terror! Adorei!!


De Alfa a 25 de Novembro de 2007 às 20:19
Olá, pois digo-te que fico contente de ter conseguido arrancar uns arrepios a quem lê o conto.Quanto à história do conto podes ler no que respondi no primeiro comentário.


beijinhos e bons arrepios.


De Infiel a 25 de Novembro de 2007 às 19:58
fez-me recordar ligações karmicas, passado não resolvido, amor não correspondido e, dividas não pagas
gostei do post


De Alfa a 25 de Novembro de 2007 às 20:30
Quem sabe tudo isso, junto a uma obsessão que ultrapassa todos os limites.Por vezes existem e são bem mais perigosas e reais quando o interveniente está vivo. Beijinhos e boas ligações kármicas.


De Infiel a 29 de Novembro de 2007 às 03:21
obrigado bem que tento saldar as minhas dividas karmicas porque, tens toda a razão, quando ha obsessão e o sujeito está vivo... consegue aterrorizar muito mais que qualquer "alma penada"


De Lua de Sol a 7 de Dezembro de 2007 às 14:30
Está fantástico... Pensei num telefonema de uma certa idosa... mas depois vi que era muito diferente... O final, o facto de ele não fazer parte do nosso mundo, está magnífico!
Adoro coisas que não prevejo... Apanhaste-me bem na curva!

Beijocas


De Alfa a 10 de Janeiro de 2008 às 16:09
è um dos meus géneros privilegiados e pelo li parece que levo jeito para a coisa LOL por outro lado fico desgastado quando escrevo este género pois tenho de me inspirar em sentimentos muito fortes e por vezes negativos. Sou fã de Ray brdabury e dos contos de Hotchcok, se bem que nade longe, gosto de tenatr escrever algo semelhante.Tenho mais mas ainada não passei para computador.Quanto á senhora ela não é desse género, é mais do género corte e costura nas costas, é por isso que digo que há coisas para as quais a idade não é desculpa,mas enfim deixemos a senhora lá nos eu canto, que se eu ainda a vou ver é em respeito ao Pedro e à minha filha...beijinhos


De Alfa a 10 de Janeiro de 2008 às 16:10
Errata: onde se lê "brdbury". Leia-se Bradbury.

Beijinhos


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